segunda-feira, 30 de abril de 2018

Uma viagem à Polónia

O que fazer quando, por ocasião de uma festividade religiosa (neste caso, a páscoa ortodoxa), aparece um período de 5 dias livres (3 dias úteis + fim de semana) no calendário? Resposta óbvia: viajar. Mesmo que só se saiba da existência desse período um par de semanas antes e se tenha feito outra viagem ainda há um mês atrás. Após uma consulta rápida de vários destinos low cost, a escolha recaiu na Polónia, um país ainda por explorar e cuja capital, Varsóvia, dista menos de 2 horas de voo de Bucareste.



Apesar de ser o local de chegada, o plano de viagem relegou Varsóvia para os últimos dias em detrimento de Cracóvia, pelo que as primeiras horas em solo polaco resumem-se em poucas palavras - foi chegar, já a meio da tarde, apanhar o autocarro desde o aeroporto até à estação central e, dali, um comboio para Cracóvia. Deu, ainda assim, para admirar um dos ex-libris de Varsóvia, localizado bastante próximo da estação - o Palácio da Cultura e Ciência (Pałac Kultury i Nauki), um edifício de 237 metros de altura, oferecido pela União Soviética e datado de 1955.

Palácio da Cultura e Ciência

Comprar um bilhete de comboio para Cracóvia, sendo aparentemente uma operação bastante simples, revelou-se mais complicado e demorado que o previsto. É que o atendimento nas bilheteiras da Warzsawa Centralna é assegurado por senhoras cinquentonas que não falam inglês, que insistiam em informar dos horários dos comboios mais velozes (e mais caros), por mais que se lhes perguntasse pelo comboio mais lento (que custa metade do preço). Após alguma insistência, que se traduziu em tempo (e um comboio) perdido, lá deu para comprar o bilhete que se pretendia. Agora que penso, se calhar podia ter ido diretamente a uma máquina. Bem, já não interessa. A distância de cerca de 300 quilómetros foi cumprida em quatro horas e tal, deu para adiantar bastante a leitura do livro que estava a ler, sobre a invasão napoleónica do Egipto, e a chegada a Cracóvia aconteceu era já noite cerrada.

Tal como sucedera em Varsóvia, também a exploração de Cracóvia ficou adiada. É que, para quem ali vai, é quase obrigatório visitar os antigos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau, a cerca de 80 quilómetros e, por questões de planificação que não interessa esmiuçar, os campos tiveram primazia.
A respeito dos campos de concentração... não é fácil encontrar as palavras. Hoje transformados em museu, os campos de Auschwitz-Birkenau mantêm-se como um memorial que evoca a pior e mais assustadora face do ser humano. Custa a acreditar que aquele local, agora calmo, organizado, silencioso, tenha presenciado as atrocidades do Holocausto. Custa a acreditar que ali tenham sido torturadas e executadas mais de um milhão de pessoas em menos de meia dúzia de anos (1940-45). O silêncio e a calma acabam por se tornar pesados e fúnebres, quando se toma consciência de tudo isto. É uma incursão marcante pelo lado mais negro da História da humanidade.

A famosa placa que diz que o trabalho liberta, no portão do campo de Auschwitz

Caminho de ferro em direção ao campo de Birkenau, construído a 3 quilómetros de Auschwitz com o intuito específico de ser um campo de extermínio

O que resta das câmaras de gás em Birkenau

Auschwitz


Faltam as palavras, sobram as perguntas. Quais seriam as expectativas de quem para ali foi trazido, para se fazer acompanhar até de utensílios de cozinha, que hoje formam parte do espólio deste museu macabro? A quem terá pertencido aquele sapato feminino, cuja cor encarnada sobressai por entre um monte de calçado escurecido numa vitrina do museu? Qual terá sido o destino das pessoas cujos nomes estão escritos nas malas abertas e vazias, amontoadas numa outra vitrina? E, essencialmente, porquê? Porquê isto, alemães?




Após Auschwitz, a oportunidade de explorar Cracóvia veio em boa altura, para lavar da memória toda aquela negritude. Segunda cidade do país e antiga capital entre os séculos XI e XV, Cracóvia é repleta de encantos e de História. É uma espécie de Praga em ponto mais pequeno, já que as semelhanças entre os centros históricos de ambas as cidades saltam à vista.
Delimitado pelo parque Planty, que o rodeia na sua quase totalidade, o centro histórico (Stare Miasto), Património Mundial da UNESCO, tem como porta de entrada o Portão de Florian (Brama Floriańska), de estilo gótico. É também ali que principia o antigo caminho real, que atravessa a cidade antiga até ao Castelo de Wavel.

Portão de Florian visto a partir da rua Florianska

O primeiro troço do antigo caminho real. Rua Florianska em direção à praça Rynek Glówny

O primeiro troço desta rota segue pela rua Floriańska, até ao coração da cidade, a praça Rynek Główny, onde sobressai a imponente Basílica gótica de Santa Maria. Torna-se difícil não recordar Praga, cujo centro histórico, igualmente Património Mundial da UNESCO, tem também como porta de entrada uma torre gótica (a Torre da Pólvora) e inclui um caminho real que vai até ao castelo,  passando por uma praça central dominada por uma igreja, também ela de estilo gótico (Týn).

Basílica de Santa Maria, na praça Rynek Glowny

A Rynek Główny de Cracóvia é, contudo, mais impressionante que a Praça da Cidade Velha de Praga, desde logo pela presença do edifício do mercado de Sukiennice (séc. XV), um dos ícones da cidade, localizado a meio da praça. Outros pontos de interesse incluem a torre da Câmara Municipal (séc. XIII), a pitoresca igreja de Santo Adalberto (séc. XI) e a arquitetura dos edifícios que delimitam a praça. Igualmente imperdível é o tradicional Hejnał mariacki, o toque da trompeta a partir da torre mais alta da Basílica, que acontece a cada hora.

Pormenor da fachada do edifício do mercado de Sukiennice. À frente, a estátua ao poeta Adam Mickiewicz; lá atrás, a torre da Câmara Municipal.

O caminho real prossegue pela ulica Grodzka até ao castelo de Wavel (séc. XIII), um vasto complexo que inclui a catedral homónima. Também aqui é possível estabelecer uma comparação com Praga, já que o Castelo de Praga, apesar de ser uns séculos mais antigo, é também ele formado por um complexo de edifícios, entre os quais uma catedral (São Vito).

Castelo de Wavel

A semelhança com a capital checa só não é maior porque o centro histórico de Cracóvia se concentra todo na margem norte do rio Vístula. Falta ali uma ponte ao estilo de Karluv e motivos de interesse na margem sul, como Praga tem Malá Strana. Em Cracóvia, do que se vê da margem norte, nem vale a pena atravessar o rio, pelo que a exploração da cidade terminou no bem tratado parque relvado junto às águas do Vístula, na base da colina de Wavel. Ali perto, uma estátua em bronze, que cospe fogo a espaços, evoca o mítico Dragão de Wavel (Smok Wawelski), protagonista de uma lenda local que remonta aos tempos da fundação da cidade.

Dragão de Wavel (aqui sem chama), na base da colina onde se ergue o castelo


O dia de regresso a Varsóvia foi, desde logo, um dia perdido. Desta vez, o meio de transporte escolhido foi um autocarro Flixbus, ainda mais barato que o mais barato dos comboios, mas que acabou por ter uma avaria na segunda paragem, na cidade de Radom. Um bom par de horas foi consequentemente desperdiçado na estação de autocarros local, e a chegada à capital aconteceu tarde e a más horas. Não deu para ver mais do que o Palácio da Cultura e Ciência (novamente), agora iluminado.
A exploração mais atenta do dia seguinte revelou uma cidade que impressiona pela sua evolução e organização, pelo menos quando comparada com outras capitais do antigo Bloco de Leste (como, por exemplo, Bucareste). Impressiona sobretudo pelo desenvolvimento da área central, onde pululam arranha-céus envidraçados, paredes meias com o Palácio da Cultura, que se mantém como uma recordação do comunismo entre os novos edifícios da era capitalista. Nem parece que Varsóvia era, há menos de 30 anos, a capital de um país comunista.

Imagem gamada algures da internet, demonstrativa do desenvolvimento de Varsóvia nos dias de hoje

O centro histórico, localizado mais a norte, é introduzido pelo aprazível parque Ogród Saski, o mais antigo parque da cidade (remonta ao séc. XVII) e um dos primeiros parques públicos do mundo. Daqui, seguindo pela Krakowskie Przedmiescie, chega-se à Praça do Castelo (plac Zamkowy), sala de visitas da capital polaca, onde se destacam o Castelo Real (séc. XVI, reconstruído após a Segunda Guerra Mundial) e a Coluna de Zygmunt (séc XVII), que homenageia o rei que transferiu a capital de Cracóvia para Varsóvia em 1596.

Parque Ogród Saski

Praça Zamkowy

A dois passos, encontra-se o mais bonito recanto da cidade: a acolhedora Praça do Mercado da Cidade Velha (Rynek Starego Miasta). É um bom exemplo de reabilitação conservando a traça medieval, já que esta área (tal como a maior parte da cidade) foi destruída durante a Segunda Guerra Mundial (à imagem do que sucedeu, por exemplo, em Nurnberg).

Rynek Starego Miasta, com a estátua da sereia, símbolo da cidade, em destaque


Rynek Starego Miasta

Após um momento de descanso na Bulwar Karskiego, à beira do Vístula, seguiu-se uma passagem pelo monumento à Revolta de Varsóvia, que evoca a rebelião do exército polaco face à ocupação Nazi, em 1944. E, claro, sendo esta a cidade de Frédéric Chopin, impunha-se uma visita ao Parque Lazienki, mais a sul, onde se ergue uma estátua em bronze em sua homenagem. 

Monumento à Revolta de Varsóvia

Monumento a Chopin, datado de 1926 e reconstruído em 1958, após ter sido destruído pelos alemães em 1940. Até isto tinham de destruir. Raios partam os alemães.

O pôr do Sol no Parque Lazienki marcou também o fim da viagem ao país nº 24 do meu travel map. O objetivo de alcançar a minha idade em número de países visitados está cada vez mais próximo. É possível que, ainda este ano, sejam dados mais alguns passos nesse sentido. Cá falarei sobre isso, no devido tempo.

1 comentário:

Anónimo disse...

Parabéns!!Com quem visitaste a Polónia?