sábado, 31 de março de 2018

Uma viagem, duas capitais

Berlim é um destino acessível a partir de Bucareste, a apenas 2 horas de voo low-cost. Praga é acessível a partir de Berlim, distando 350 quilómetros por auto-estrada. Somando estas duas premissas, obtém-se como resultado uma viagem às capitais alemã e checa, duas cidades que há muito pediam uma visita (especialmente a segunda).

Berlim

O primeiro contacto com Berlim tem como palco a Alexandrerplatz. É quase inevitável que assim seja, já que é ali que vão dar as rotas de transporte público desde os aeroportos, havendo ainda uma estação ferroviária e também a principal estação da rede de metro (U-Bahn), o que faz desta praça uma espécie de sala de visitas da capital alemã. Juntando a isto a existência de numerosos espaços comerciais, obtém-se um bulício constante, o que torna a "Alex", como os berliners lhe chamam, um dos pontos com mais vida na cidade.

Alexanderplatz (estação ferroviária e torre de televisão)

A Alexanderplatz é dominada pela Fernsehturm (torre de televisão), uma estrutura de 368 metros (a mais alta da Alemanha) construída em 1969 para simbolizar o comunismo e que se tornou um símbolo da própria cidade. Outra estrutura que se destaca nesta praça central, pela sua dimensão e estado devoluto em pleno centro de uma concorrida capital europeia, é a Haus der Statistik, um edifício dos anos 1960 que serviu como centro de estatísticas e arquivo até ser abandonado em 2008. Na fachada que confronta a Alexanderplatz surgiu entretanto uma mensagem, significativa para uma cidade que, na ressaca da Segunda Guerra Mundial e no decorrer da Guerra Fria, esteve dividida durante três décadas (entre 1961 e 1989).

Stop wars. A mensagem de um edifício devoluto da antiga Berlim Oriental para a Alexanderplatz dos dias de hoje.

A Alexanderplatz é também um bom ponto de partida para explorar o centro (Mitte) de Berlim. Seguindo na direção do rio Spree e passando pela Rathaus (câmara municipal), Neptunbrunnen (Fonte de Neptuno) e St.Marienkirche (Igreja de Santa Maria), chega-se à Museumsinsel, ilha dos museus, onde se destaca, além dos vários museus que lhe dão o nome, a Catedral de Berlim (Berliner Dom).

Câmara municipal (Rathaus) e Fonte de Neptuno


Catedral de Berlim vista a partir das margens do rio Spree. Lá atrás, a omnipresente Fernsehturm

Cruzando novamente o Spree pela Schlossbrücke, tem início a Unter den Linden, a principal avenida da cidade e antigo caminho real, que se estende desde o local onde outrora existiu o Palácio de Berlim (Berliner Schloss, construído no século XV, demolido em 1950 e atualmente a ser reconstruído, estando a sua conclusão prevista para 2019) até outro dos símbolos da capital germânica -  a Porta de Brandemburgo. Este era um dos pontos em que a cidade se dividia em duas pelo Muro de Berlim, mas sem que a Porta servisse como divisão, pelo que este monumento esteve isolado e vedado ao tráfego até à queda do muro, em 1989. 

Porta de Brademburgo fotografada durante a blue hour. Esta antiga entrada da cidade foi construída em 1791 e era utilizada pelo rei da Prússia para aceder ao atual parque de Tiergarten, então uma área de caça.

Também anónimo desde o pós-guerra até à reunificação alemã esteve o vizinho edifício do parlamento (Reichstag), que depois de ser destruído durante a II Guerra Mundial, só viria a ser restaurado e a recuperar as suas funções em 1999 - o parlamento da Alemanha de Leste reunia no Palast der Republik, que existiu até 2009 no local do antigo Palácio de Berlim, enquanto o Parlamento da Alemanha Ocidental estava sediado em Bonn.

Reichstag

Outro ponto evocativo dos tempos da Guerra Fria é o Checkpoint Charlie, no cruzamento da Friedrichstrasse com a Zimmerstrasse. Mais não é do que uma réplica do famoso posto militar que servia de fronteira entre as duas Alemanhas, outrora um dos locais onde se fechava a Cortina de Ferro, hoje uma atração turística onde, claro, se circula livremente.
Não muito longe dali, situa-se Gendarmenmarkt, certamente a praça mais bonita de Berlim. Um espaço concebido em finais do século XVII, de arquitetura harmoniosa, com duas catedrais bonitas e idênticas em cada lado, a Französischer Dom (Catedral Francesa) e a Deutscher Dom (Catedral Alemã), encimado pela majestosa Konzerthaus.

A icónica placa junto ao Checkpoint Charlie (passar por aqui teria tido mais piada entre 1961 e 1989)

Gendarmenmarkt (Deutscher Dom e Konzerthaus)

A visita a Berlim foi algo curta (pouco mais de 24 horas), mas ainda assim suficiente para contactar com a história atribulada de uma das cidades mais relevantes no panorama internacional do século XX. Teria sido desejável um pouco mais de tempo, já que ficou a faltar, entre outras coisas, uma melhor exploração do Tiergarten, uma ida à East Side Gallery com o pouco que resta do Muro de Berlim, à vizinha Oberbaumbrücke e, para um fã de desporto, ao Estádio Olímpico. Mas deu para o essencial, e era chegada a hora de rumar a Praga.

Praga

Depois de uma viagem de 4 horas por auto estrada, via Dresden, num autocarro de categoria (grande Regiojet) com ecrãs individuais em cada assento para entretenimento do passageiro (encontrei por lá The Division Bell dos Pink Floyd, que serviu de banda sonora durante uma parte do trajeto), eis Praga. Um primeiro contacto que, perante a hora tardia, se resumiu à estação de Florenc e à procura do alojamento, algures em Žižkov. A descoberta da cidade começaria, por isso, só no dia seguinte, tendo como ponto de partida a Praça da República (Náměstí Republiky), porta de entrada do centro histórico. A Casa Municipal (Obecní dům) é um bom cartão de visita e, logo ao lado, a Torre da Pólvora (Prašná brána), antiga porta da cidade, oferece desde o seu topo uma bela panorâmica de Praga. Começar a visita por ali é admirar primeiro a cidade a partir do alto, e só depois partir à descoberta das ruas do centro histórico que de lá se avistam.

Centro histórico de Praga visto a partir da Torre da Pólvora

É na Torre da Pólvora que tem início o chamado caminho real (Královská cesta), um trajeto outrora percorrido pelos reis checos, que atravessa o centro de Praga e culmina no castelo. O primeiro troço, pela rua Celetná, conduz à Praça da Cidade Velha (Staroměstské náměstí), ponto nevrálgico da cidade, dominado pela igreja gótica de Týn e as suas características torres pontiagudas. Consta que há também por ali um famoso relógio astronómico do século XV mas, para meu azar, fui dar com a torre da Câmara Municipal da Cidade Velha, onde ele deveria estar, embrulhada em andaimes. Tinham de lhe fazer a manutenção logo agora, pois então.

A estátua de Jan Hus a contemplar a Igreja de Tyn

Era suposto estar ali um relógio astronómico

Ultrapassada a desilusão do relógio com a saborosa ajuda de um Trdelník (o equivalente checo do Kürtőskalács húngaro), havia que regressar ao caminho real, que dali continua pela rua Karlova, fazendo a ligação à mais famosa landmark de Praga - a ponte Karlův, sobre o rio Vltava. Batizada em honra do rei boémio Carlos IV, que a mandou construir em 1357, esta ligação pedonal entre Staré Město (a Cidade Velha), na margem oriental, e Malá Strana (a Cidade Menor), na margem ocidental, é o coração e alma da capital checa. Local de passagem obrigatória para quem visita, é também um ponto de concentração de artistas de rua, que acrescentam sonoridade, cor e vida a um sítio já de si imponente e ornamentado, e de onde se obtêm as melhores vistas sobre as duas margens do Vltava.

Ponte Karluv e uma bonita vista sobre Malá Strana e o castelo, na outra margem do Vltava

Em Malá Strana ergue-se, imponente, no topo da colina de Hradčany, o Castelo de Praga (século IX). Com uma área total de 70 mil metros quadrados, este complexo, que inclui também a Catedral de São Vito e o antigo Palácio Real, é considerado o maior castelo antigo do mundo. 

Rua Mostecká, em Malá Strana. Ao fundo, uma das torres da Igreja de São Nicolau

Catedral de São Vito

Parece que do alto dos 102 metros da torre principal da catedral de São Vito, que já de si se encontra numa posição altaneira, se obtêm vistas abrangentes sobre a cidade. Infelizmente, cheguei lá já fora das horas de visita e não pude constatar se assim é. E isso pode muito bem ter acontecido porque, ao passar pela entrada do castelo, achei que o castelo não era ali e continuei pela rua Loretánská acima, seguindo as placas que indicavam "Strahovský klášter" e presumindo que "klášter", pela semelhança na grafia, significava "castelo"... Vim a descobrir que afinal era um mosteiro. Mas ainda assim, a caminhada adicional valeu a pena, pelas vistas que de lá se obtêm. Perdi a vista de São Vito, ganhei esta.

Praga banhada pelo Sol, vista a partir do Mosteiro (e não castelo) Strahovsky

Ao admirar outra bela panorâmica, a partir da escadaria que liga o castelo a Malá Strana, percebi que, além do Trdelník, Praga tem outras semelhanças com Budapeste que saltam à vista. Em ambas as capitais há uma praça central na margem direita, dominada por uma igreja (praça Staroměstské e Igreja de Týn em Praga, Praça e Basílica de St. István em Budapeste), com continuidade até aos respetivos rios, onde uma bonita ponte (Karlův most na capital checa, Széchenyi Lánchíd na capital húngara) faz a ligação com a margem esquerda, na qual se ergue um majestoso castelo (Castelo de Praga versus Castelo de Buda). E, perante todas estas parecenças, fica difícil eleger uma favorita entre estas duas cidades. Gosto bastante de ambas, e fica assim.

Vista sobre Praga ao entardecer, a partir da escadaria do castelo

Havia ainda tempo para ir a Vyšehrad (onde há outro castelo) e explorar melhor o centro histórico, incluindo a praça Václavské, mas o último dia em Praga trouxe uma chuva intensa que comprometeu esses planos (se mais semelhanças com Budapeste fossem necessárias, eis outra - tempo chuvoso). Uma breve visita à casa dançante de Frank Gehry (Tančící dům) e uma curta passagem pelo mercado de Havel, um dos mais antigos da cidade (data de 1232), foi a exploração possível, antes de procurar abrigo da chuva incessante num centro comercial da Praça Republiky.

Praga num dia chuvoso (vista do Castelo e Ponte Karluv sobre o Vltava, a partir da marginal Smetanovo nábřeží

Ainda assim, só posso dizer que foi um prazer conhecer Praga. Uma cidade encantadora, com uma história rica e vasta (foi fundada no século VII) contada por uma herança arquitetónica impressionante, que vai do românico ao gótico, passando pelo barroco, classicismo e art noveau, e que felizmente escapou à destruição das guerras que assolaram a Europa no século XX. É uma cidade à qual não me importaria de voltar, uma e outra vez.

A segunda fotografia deste post captada durante a blue hour. Ponte Karluv, na direção do castelo

Perspetiva noturna da Staroměstské náměstí

Nürnberg

Nem só de Berlim e Praga se fez esta viagem. O facto de haver um voo de regresso muito mais barato a três horas e meia de distância foi justificação suficiente para empreender uma nova viagem de autocarro, com destino a Nürnberg. Além de poupar dinheiro com o voo, havia ainda o bónus de poder visitar mais uma cidade, ainda que com tempo limitado. De referir que a rota de regresso à Alemanha passou por Plzen, cidade onde o Sporting viria a jogar dois dias mais tarde. Perderam o jogo mas passaram a eliminatória, pelo que não percebi se a minha passagem por lá deu sorte ou azar...
Da breve visita a Nürnberg, destaca-se a passagem pela Schuldturm (torre da prisão medieval, datada do séc. XIV) junto ao rio Pegnitz, e pela margem norte, nas imediações do hospital Heilig-Geist (também do séc. XIV) e da Hauptmarkt, antiga Praça Adolf Hitler, nos tempos em que esta cidade era um bastião nazi. Voltando atrás pela Museumsbrücke e seguindo pela Königstrasse chega-se a outra praça central, a Lorenzerplatz, onde se situa um dos símbolos da cidade - a igreja gótica de St. Lorenz (séc. XIII). E foi só isto, pois havia ali uma estação de metro convenientemente localizada para rumar ao aeroporto, e já se fazia tarde.

Schuldturm

Hospital medieval Heilig-Geist, visto a partir da Museumbrucke

Nürnberg consegue manter, de algum modo, a atmosfera de típica cidade medieval germânica, ainda que na realidade praticamente tudo o que está à vista seja posterior a 1945, já que 90 por cento da cidade foi destruída no decorrer da II Guerra Mundial. Esta é, por isso, uma cidade reerguida das cinzas e um belo exemplo de reabilitação e reconstrução mantendo a traça original dos edifícios.

Konigstrasse e Igreja de St. Lorenz

Assim se resume a história da primeira viagem a sério de 2018. E como, com viagens, mais nunca é demais, daqui a uma semana já há outra, também ela internacional e enriquecedora do meu travel map. Daqui a um mês ou assim sou capaz de falar aqui sobre isso.

1 comentário:

Anónimo disse...

Visitaste as cidades sozinho?