sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Emigrante sem saudades

No decurso de uma deriva cibernética, dei por mim a assistir a uma reportagem da RTP (esta aqui) sobre emigrantes que saíram de Portugal nos anos de maior aperto da crise económica (2011-2014) e que, entretanto, voltaram às origens. Como emigrante, e ainda que não tenha saído desse período crítico (curiosamente, nesses anos consegui manter-me a trabalhar em Portugal, ainda que a ser explorado à grande e à portuguesa, mas isso são outras histórias...), senti-me compelido a clicar no play para ouvir testemunhos de quem deixou Portugal mas que, ao contrário de mim, já para lá voltou. E comprovei que não sou um emigrante normal (nada que já não soubesse).
Enquanto um entrevistado afirmava que, ao apanhar o avião para ir embora, lhe dava um "aperto no coração", eu pensava para comigo, "eu sinto é alívio"; enquanto outro entrevistado dizia ter saudades da família e do meio a que estava habituado, eu pensava "ainda bem que não tenho esse problema das saudades, realmente deve ser chato"; enquanto todos eles declaravam que sempre quiseram regressar e se mostravam felizes por viverem de novo no seu país, eu concluía que "não senhor, não tenciono, nem quero, voltar para Portugal".

E se não tenho intenção de voltar para Portugal em definitivo, a vontade de lá ir de férias também é pouca ou nenhuma. Ainda agora, que se aproxima o natal (época que, para mim, perdeu todo o encanto quando percebi que, em vez de um suposto pai natal, eram os meus progenitores que gastavam dinheiro com os presentes), os meus colegas de trabalho portugueses se mostraram surpreendidos por eu não ir a Portugal nesta altura. E mais surpreendidos ficaram ao saber que, desde que emigrei, nunca fui a Portugal no natal. Todos eles vão, e eu, contrariamente aos dois natais anteriores, em que o trabalho me impediu, também podia ir, se assim quisesse. Ainda tenho dias de férias, e para cobrir o resto podia trabalhar a partir de casa. Mas não quis. Em boa verdade, se lá vou de vez em quando é por desencargo de consciência. Aliás, chateia-me um bocado (para não dizer muito) ter de gastar metade dos dias de férias a que tenho direito para me ir enfiar numa aldeola no meio da serra, quando podia utilizá-los a fazer o que faço com a outra metade: viajar. Mas pronto, como diz a minha progenitora, não apareci já criado, aí algures atrás de uma couve ou de uma gesta. Há que fazê-lo por eles, pelos progenitores, até porque são a única família que tenho neste mundo. 

Emigrei em 2015 para um país da Europa de Leste, o que leva as pessoas a dizer coisas como "então isso é tão pobre, eles vêm para cá e tu vais para lá?" e "deves ser o único português aí, não?" (infelizmente não sou, que os portugueses, essa raça do diabo, estão por todo o lado). Após dois anos e meio, tenho um emprego estável no departamento financeiro numa das maiores empresas do mundo, com salário mileurista, certinho e pago a tempo e horas, algo que dificilmente, muito dificilmente, teria em Portugal. Ou, se me quiser deixar de merdas, não teria. E esta estabilidade laboral leva-me a olhar para Portugal de nariz torcido e, porque não, de dedo do meio em riste. Sei que, ao proceder deste modo, estou a perpetuar a minha continuidade numa comunidade à qual não pertenço (caí aqui um pouco de para-quedas e, após tanto tempo, ainda nem a língua falo de forma fluente), ao mesmo tempo que vou sendo esquecido no país que me dá a nacionalidade, tornando-me progressivamente um "apátrida psicológico" (mas com BI e passaporte português, que dá sempre jeito). Pois bem, que assim seja.

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