quinta-feira, 31 de agosto de 2017

À descoberta do sudoeste romeno

A mais recente viagem de fim de semana prolongado teve como destino a ponta sudoeste da Roménia. Uma road trip de quase 400 quilómetros a partir de Bucareste, acompanhando, já perto do destino, o curso do Danúbio e, posteriormente, de um dos seus tributários: o rio Cerna. Uma região tranquila e de paisagens verdejantes, onde o segundo maior rio da Europa começa a conhecer o seu último país e estabelece a fronteira natural com a Sérvia. Uma região que, como escrevi no último post, me ficou na retina desde que ali passei de comboio a caminho de Budapeste, e me fez colocar uma cruzinha num mapa mental para ali voltar mais tarde. Aconteceu agora, dois anos depois.

Orșova, na foz do rio Cerna

A viagem tinha como destino principal Orșova, uma pequena cidade aninhada junto à foz do rio Cerna. Uma localidade que merece ser visitada, mais que não seja pelo cenário natural que a envolve. O lago que se forma onde o Cerna se funde com o Danúbio, causado pela presença da barragem das Portas de Ferro (Portile de Fier) 20 quilómetros a jusante, aliado à moldura composta pelos montes Almăjului fez-me lembrar Lugano (com as devidas diferenças), uma comparação reforçada pelo tempo chuvoso que se fazia sentir.

A marginal Bulevardul 1 Decembrie 1918, em Orșova

Mas se, por um lado, a barragem das Portas de Ferro deu a Orșova uma espécie de lago que acrescenta beleza à paisagem, por outro retirou-lhe a sua parte mais importante: o centro histórico. A parte antiga da cidade, cujas origens remontam aos tempos do Império Romano, foi submersa com a construção da barragem na década de 1970, pelo que a Orsova atual tem uma história relativamente recente e, por isso, pouco para oferecer em termos de património histórico. Uma caminhada pelo Parcul Dragalina, numa pequena península rodeada pelo Cerna e uma passagem pelo Mosteiro de Santa Ana, numa localização mais altaneira e com uma vista privilegiada sobre a cidade e o rio, e está a visita feita. 

Vista de Orșova a partir do Parcul Dragalina, com o Mosteiro de Santa Ana em destaque

É a cerca de 20 quilómetros de Orșova, junto às águas do Danúbio, que se encontra uma das principais atrações da região: a escultura de Decebal, o último rei da Dácia e herói na luta contra o Império Romano (o equivalente a Viriato na história local). Com os seus 55 metros de altura por 25 metros de largura, é a maior escultura em rocha da Europa e a sua execução reuniu uma dúzia de escultores ao longo de uma década (1994-2004).

Chipul lui Decebal

A poucas centenas de metros da escultura de Decebal encontra-se o Mosteiro Mraconia (séc. XVI), erigido no local de um antigo posto de observação na margem Romena do Danúbio.


Subindo pelo cénico vale do rio Cerna chega-se a Băile Herculane, uma estância termal encaixada entre os montes Mehedinți. A toponímia da cidade, fundada pelos Romanos no século II d.C. com o nome de Aqua Herculis, evoca Hércules que, reza a lenda, procurou estas paragens para banhos e descanso.

Estátua de Hércules no centro histórico Băile Herculane, ali colocada pelos Austríacos em 1847.

Após centenas de anos sob domínio otomano, os Austríacos conquistaram a região no século XVIII e redescobriram o seu potencial termal, fazendo renascer uma estância que o imperador austríaco Francisco José I chegou a considerar como a mais bela do continente europeu. Longe vão esses tempos (apesar de não terem passado nem 200 anos) em que Băile Herculane, então Herkulesbad, era uma das jóias do Império Austríaco e Austro-Húngaro. Hoje em dia, Băile Herculane é uma sombra decadente desses tempos idos. Apesar de continuar a ser um destino turístico, sobretudo doméstico, devido às propriedades terapêuticas das águas termais, grande parte da herança histórica e arquitetónica do período imperial encontra-se degradada e votada ao abandono. 

Edifício de banhos termais do Império Austríaco, datado de 1886, uma das pérolas arquitetónicas de Băile Herculane, abandonada aos rigores do tempo. A ponte pedonal em ferro sobre o Cerna, construída na mesma altura, foi tomada pela ferrugem e está encerrada.

O roteiro da viagem incluiu também a cidade de Drobeta-Turnu Severin, que serviu como dormitório (e refeitório) devido ao esgotar da capacidade hoteleira em Orșova. Do pouco que foi possível ver, de passagem, parece ser uma cidade sem grande beleza ou pontos de interesse, apesar de ser banhada pelo Danúbio.
Ali perto, do outro lado do rio e com um posto fronteiriço na barragem das Portas de Ferro, fica a Sérvia, infelizmente não incluída no programa. Um novo carimbo no passaporte esteve a um quilómetro de distância. Terá de ficar para outra altura...

A Sérvia ali tão perto...

Também incluída do roteiro, por ser um local de passagem, Craiova mereceu uma breve visita. Do pouco tempo ali passado, fica a ideia de uma cidade em obras para se apresentar de cara lavada. Alguns resultados já podem ser vistos, como por exemplo a Strada Panait Mosoiu e a Strada Fratii Buzesti, transformadas em ruas pedonais ornamentadas com estátuas e street art. O Palatul Administrativ, o edifício da Universidade e o semi-selvagem Parcul Nicolae Romanescu são outras landmarks de interesse daquela que é a sexta maior cidade da Roménia.

Estátua na Strada Fratii Buzesti, em Craiova

Entretanto, está já planeada uma nova viagem. Tanto aqui falei no Danúbio que daqui a umas semanas vou poder vê-lo outra vez, várias vezes. Será em Budapeste, Bratislava e Viena. Haverá certamente um post a esse respeito, em momento oportuno.

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