sexta-feira, 12 de maio de 2017

Futebol romeno

Na semana passada, assisti ao vivo a um jogo de futebol pela 4ª vez desde que cheguei à Roménia. Depois de um Steaua-Botosani logo no meu primeiro fim-de-semana neste país, um derby Dinamo-Steaua no meio dos aficionados da Peluza Catalin Hildan e um Dinamo-Viitorul Constanta em Fevereiro último (e ainda uma tentativa falhada de ver outro derby), desta vez assisti a novo confronto entre os dois maiores clubes de Bucareste. Um "Eternul Derby" de caráter decisivo para as contas do campeonato e que levou 37 mil pessoas à Arena Nationala, o estádio nacional romeno.
Antes do apito inicial, a claque do Dinamo deu espetáculo, com uma coreografia a apresentar uma "previsão" de Nostradamus para 2020: Um estádio novo, sem pista de atletismo, e o Steaua a desaparecer por culpa de gente que não percebe nada de futebol...


Quanto à história do jogo dentro das quatro linhas, explica-se também em quatro linhas de texto (ou nem isso): o futebol foi sofrível, o Dinamo beneficiou de um penalty na primeira parte, consentiu um golo parvo a abrir a segunda metade e beneficiou de outra grande penalidade já nos descontos. 2-1 para os cães vermelhos, que assim reentraram na luta pelo título.


Mencionar este derby é também uma boa oportunidade para fazer algo que ainda não fiz neste espaço: falar sobre o futebol que se pratica neste canto do Leste Europeu.
Longe dos tempos em que o Steaua era campeão europeu e Gheorghe Hagi, o Maradona dos Cárpatos, encantava o mundo do futebol, o desporto-rei na Roménia resume-se, por estes dias, a um cenário de fraca qualidade, corrupção e dificuldades económicas. Por conta destes aspetos, sobretudo deste último, o campeonato romeno é palco de mudanças constantes, com clubes que desaparecem após experimentarem um sucesso efémero. São muitos os exemplos que se encontram, recuando apenas 10 anos. O Unirea Urziceni foi campeão pela primeira e única vez em 2009, disputou a Champions League e logrou ficar em 3º num grupo com Sevilla, Stuttgart e Rangers, qualificando-se para a Europa League, onde foi eliminado pelo Liverpool. Um ano depois desta campanha europeia, o clube foi despromovido e dissolvido. O Otelul Galati, outro campeão estreante, conquistou o título romeno em 2011 e disputou a fase de grupos da Champions League com Manchester United, Benfica e Basel; acabou por descer de divisão em 2015 e foi dissolvido no ano passado. O Vaslui, vice-campeão romeno em 2012 e com presença assídua na Europa League entre 2009 e 2013, onde chegou a ganhar um jogo ao Sporting, foi despromovido por dificuldades económicas em 2014, apesar de ter acabado em 5º no campeonato, e agora arrasta-se pelas divisões inferiores. Pelas divisões mais baixas anda também o Rapid, o terceiro clube da capital, vencedor de 3 campeonatos (o último em 2003) e vice-campeão em 14 ocasiões, e que ainda em 2006 chegou aos quartos-de-final da Europa League (caindo perante o Steaua). Depois da despromoção em 2015, os ferroviários conseguiram a promoção dentro de campo, mas as dificuldades financeiras fora dele ditaram a falência do clube de Giulesti. Apenas Steaua e Dinamo (desde a década de 1940) e Cluj (desde 2005) se vão mantendo na primeira divisão. 
De referir que o Steaua, o clube mais titulado e com mais adeptos da Roménia, está agora proibido de usar esse nome e utiliza a sigla FCSB. Tudo devido a uma ação movida pelo Ministério da Defesa contra o clube e o seu atual proprietário, o polémico Gigi Becali, alegando que o exército, detentor do histórico clube CSA Steaua mas que viu a secção de futebol tornar-se independente em 1998, tem direitos sobre a utilização do nome, logótipo e palmarés. A justiça concordou e, perante a recusa de Becali em pagar qualquer indemnização pelo uso do nome, o FC Steaua Bucuresti passou a denominar-se FCSB. Entretanto, o exército vai reativar a secção de futebol do CSA, pelo que a partir da próxima época haverá um novo Steaua, a competir nas divisões inferiores. Existirão, de certo modo, dois Steaua, nada de novo neste país, até porque já existiram dois Universitatea Craiova, com as mesmas cores e reclamando o mesmo palmarés, que chegaram a jogar entre si na segunda divisão (este artigo do Público resume bem a história), e há neste momento dois Politehnica Timisoara - o clube original, fundado em 1921, foi dissolvido em 2012 mas um outro emblema vizinho, então na segunda divisão, foi relocalizado para Timisoara, dando seguimento à história e ao palmarés com o nome de ACS Poli; entretanto, um grupo de adeptos fundou um novo clube nas divisões regionais: o ASU Politehnica. O ACS está na primeira divisão, a lutar para não descer, e o ASU compete na segunda divisão. Um encontro oficial entre os dois emblemas já esteve mais longe. Sim, o futebol romeno é pródigo em episódios caricatos.

Duas equipas (Poli Timisoara e Targu Mures) chegam ao jogo com equipamentos de cores iguais. A solução: o conjunto visitante arranja umas t-shirts brancas e escreve os números à mão. Um episódio verídico que teve lugar em dezembro passado.

Entre os novos competidores do futebol romeno encontram-se o Astra, clube que se mudou de Ploiesti para Giurgiu em 2012 e foi campeão em 2016, e o Viitorul Constanta, o projeto de futebol de formação criado por Gheorghe Hagi na sua cidade natal em 2009. A equipa principal chegou já às competições europeias e na presente temporada luta com Steaua (ou FCSB) e Dinamo por um título inédito, com um plantel 99% romeno e com uma média de idades de 23 anos. Um projeto interessante e que, fazendo uso das boas instalações desportivas que possui, se espera poder mudar alguma coisa num país cujo futebol está arredado da ribalta europeia e à procura de melhores dias.

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