domingo, 30 de abril de 2017

The Lonely Traveler, pt. 6 - Suíça

Uma viagem carregada de simbolismo. O anunciado último capítulo da saga do viajante solitário teve como destino a Suíça, para uma jornada que havia prometido a mim mesmo: o regresso à terra natal, 20 anos depois.

Zofingen, Aargau, Suíça: o principal objetivo da viagem

Com o objetivo de adicionar algo mais a esta viagem do que apenas nostalgia, voei de Bucareste para Itália, por forma a entrar na nação helvética pelo Sul, visitando Lugano e atravessando depois os Alpes, rumo a Aargau, no Norte.
Após aterrar no aeroporto de Linate, a primeira paragem foi, por inerência do trajeto, a cidade de Milão. Tratando-se da minha segunda passagem pela capital da Lombardia, não me detive por lá muito tempo, apenas o necessário para mais umas fotografias ao Duomo, à Galleria Vittorio Emmanuele II e à praça circundante. Chovia torrencialmente, mas nem assim o centro nevrálgico milanês se apresentava menos desimpedido de turistas asiáticos, ou de moços africanos/indianos a tentarem impingir coisas (pulseirinhas e, naquele dia, guarda-chuvas).

Piazza del Duomo num dia chuvoso

Na estação Centrale, apanhei depois o comboio regional que dá pelo simpático nome de TILO (Ticino-Lombardia), e que liga Milão a Bellinzona, no cantão italiano da Suíça. Cheguei a Lugano já de noite e ainda debaixo de chuva forte. A Suíça passava, finalmente, a fazer parte do meu mapa de países visitados. E chegou assim ao fim um dia em que estive em 3 países diferentes (creio ter sido a primeira vez que tal me aconteceu): acordei na Roménia, passei por Itália e fui dormir à Suíça.

Um comboio sorridente 

Lugano, a maior cidade do cantão de Ticino e situada às margens do lago homónimo, estava na minha lista há bastante tempo. Do mal o menos, no dia que destinei para a explorar, a chuva deu tréguas durante algumas horas.
Um bom sítio para começar a conhecer a cidade é precisamente junto à estação ferroviária, de onde se obtêm excelentes panorâmicas sobre o casario e o lago. Continuando em direção ao centro, há duas opções: ir a pé, passando pela Catedral de San Lorenzo e descendo a Via Cattedrale, ou apanhar o funicular, que vai da estação até à Piazza Cioccaro. Já no centro, é obrigatório passar pela Piazza della Riforma, a praça principal da cidade, de arquitetura tipicamente italiana, e onde se destaca o Palazzo Civico, sede do município. Nas traseiras do Palácio surge a marginal e o lago, com vistas soberbas para o Monte San Salvatore, o "Pão de Açúcar" em ponto pequeno, que dá a Lugano a alcunha de "Little Rio". A visita a esta cidade alpina, mas de aparência mediterrânica, não fica completa sem uma passagem pelo florido e bem conservado Parco Civico, um simpático espaço verde com belas vistas sobre o lago, a cidade e os montes circundantes.

Vista sobre Lugano, com a torre da Catedral de San Lorenzo em destaque 

Fachada do Palacio Civico, que domina a Piazza della Riforma

Lago di Lugano e o Monte San Salvatore, o "Pão de Açúcar" local

Parco Civico

Concluída a visita a Lugano, era tempo de avançar para o verdadeiro objetivo desta viagem: visitar a minha cidade natal e percorrer os cenários da minha infância. No dia seguinte, manhã cedo, estava na estação para apanhar um comboio para norte, através das montanhas e do recém-inaugurado Túnel de São Gotardo, o mais extenso túnel ferroviário do mundo. Tirei bilhete para Luzern, que me custou 61 francos, sensivelmente o triplo do preço do bilhete de avião de regresso à Roménia. A Suíça é um país escandalosamente caro. Fiquei revoltado e decidi que não voltaria a pagar para andar de comboio. E assim foi. Depois de uma rápida passagem por Luzern, meti-me noutro comboio rumo a Zofingen, a minha cidade natal, sem comprar bilhete. Entrei, fechei-me na casa de banho, e duas paragens depois, saí. Desta forma, não gastei 20 francos. Entretanto, resta acrescentar que no trajeto entre o final do Túnel de São Gotardo e Luzern nevou com intensidade. Teria sido melhor ver os cumes das montanhas sob um dia solarengo, mas ver tempestades de neve em finais de abril também é engraçado.

A única montanha que se deixou ver durante a travessia de comboio, ainda antes do Túnel de São Gotardo

Luzern num dia gelado. Vista da Kapellbrücke, a icónica ponte de madeira sobre o rio Reuss, construída em 1365.

O regresso a Zofingen começou pelo seu pequeno e organizado centro histórico (altstadt), acessível logo à saída da estação. Caminhar pelas ruas pacatas da altstadt é como viajar no tempo, no meu caso em dose dupla. Além de contactar com a História de uma típica cidade Suíça, que remonta ao século XIII, passar por locais emblemáticos como o edifício da Rathaus, a central Niklaus Thut Platz, a icónica Stadtkirsche ou a Pulverturm e o seu canhão trouxe de volta memórias de infância. Enquanto turista mas também com uma pontinha de orgulho por ser natural desta terra, direi que Zofingen tem, possivelmente, o mais bonito e bem conservado centro histórico que já visitei.

 Zofinger Altstadt vista a partir da estação ferroviária 

Niklaus Thut Platz, a praça central de Zofingen

Entrada no centro histórico de Zofingen pela Vordere Hauptgasse, bem guardada por dois majestosos leões (não é por ser do Sporting, mas estes bichos ficam bem onde quer que lhes ergam uma estátua)

Para completar o tour nostálgico, faltava ir à localidade onde residi: Strengelbach, a pouco mais de 2 quilómetros de Zofingen. Fui a pé, replicando uma rota tantas vezes feita com os meus progenitores, e passei bons momentos a identificar locais ainda presentes na minha memória. Quanto a isto não me vou alongar muito, referirei apenas que foi bom voltar ali ao fim de duas décadas.

Sägetstrasse, a rua onde residi em Strengelbach

Uma fotografia digna de postal, captada nos arredores de Strengelbach

O dia acabou em Basel, onde cheguei de comboio, mais uma vez sem bilhete (se resultou uma vez, porque não insistir e poupar mais uns francos?). A cidade explorei-a no dia seguinte, enquanto esperava pela hora do voo de regresso a Bucareste.
Situada no extremo noroeste da Suíça, junto à fronteira com Alemanha e França, Basel é atravessada pelo rio Reno, que a divide em duas partes distintas - Grossbasel, que inclui a cidade antiga, na margem sul, e Kleinbasel, na margem norte. A uni-las há diversas pontes, sendo a mais famosa a Mittlere Brücke, cuja estrutura original remonta a 1226. As atrações concentram-se, sobretudo, em Grossbasel, começando pela Marktplatz, encimada pela Rathaus (câmara municipal), e terminando na catedral de Münster, com a sua vasta praça e o miradouro sobre a cidade, passando pelo emaranhado de ruas estreitas da cidade medieval. Do lado de Kleinbasel, destaca-se a marginal Oberer Rheinweg, um local privilegiado para passar um tempo agradável a ler ou a petiscar alguma coisa, na companhia das águas do Reno e com vista para Grossbasel e o seu casario sobre o rio.

Fachada da Rathaus (e dá para ver que Basel tem orgulho no seu clube de futebol)

Basler Münster

Altstadt Grossbasel (cruzamento das ruas Nadelberg e Spalenberg)

Oberer Rheinweg, com vista para Grossbasel e para a Mittlere Brücke, a ponte mais antiga entre as duas margens do Reno 

Concluída a jornada por terras helvéticas, o voo de regresso à Roménia saiu do único aeroporto tri-nacional do mundo - O EuroAirport, situado em território francês, serve Basel (Suíça), Mulhouse (França) e Freiburg (Alemanha). Apesar de ter estado geograficamente em França (como também já tinha sucedido em 2011, a trabalhar nas vindimas, e antes disso, nas viagens de automóvel entre Suíça e Portugal), este país manter-se-á bloqueado no mapa de viagens. Podia também ter aproveitado a tríplice fronteira para ir à Alemanha, mas não estive para aí virado. Noutra altura lá irei. O mapa engloba agora 18 países e, com jeitinho, ainda este ano há-de chegar às duas dezenas, mas as viagens solitárias vão mesmo ficar por aqui. Foi uma excelente experiência, que recomendo a toda a gente. O meu travel map, esse, continuará a ser alargado até atingir (e ultrapassar) a minha idade em número de países visitados, mas a partir de agora estarei acompanhado nessa missão.

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