terça-feira, 20 de setembro de 2016

Um olhar sobre București

O tempo passa mesmo depressa. Demasiado depressa. Parece que ainda ontem cheguei à Roménia e já lá vai praticamente um ano e meio. E reparo que, à exceção dos posts iniciais sobre as primeiras impressões, ainda não dediquei qualquer publicação neste espaço à cidade que agora me acolhe. O que dizer, então, a respeito de București (ou Bucareste, vá)?


Ponto número um: a generalidade das pessoas não faz ideia do que é Bucareste. Eu próprio vim com a mente meio toldada por ideias preconceituosas, que concebem esta cidade como um lugar cinzento, sinistro, subdesenvolvido e maioritariamente habitado por ciganos. É certo que Bucareste, mercê da herança da ditadura comunista, não estará no top das cidades mais bonitas, e é também certo que há problemas sociais e pobreza, como de resto haverá em quase todas as capitais europeias. Mas há outra realidade a descobrir para além dos preconceitos.

Vista aérea do centro de Bucareste: Piața Unirii, Bulevardul Unirii até ao Parlamento e, à direita, o rio Dâmbovița (imagem gamada da Internet, já não me lembro de onde. O autor que me desculpe)

A primeira impressão transmitida por Bucareste é a de uma cidade formatada pelo utilitarismo comunista (como parte da célebre “sistematização” do ditador Nicolae Ceaușescu) - avenidas largas e extensas, ladeadas ao longo de quilómetros por filas estandardizadas de blocos de apartamentos. Esteja-se em que parte da cidade se estiver, parece que é tudo igual. Mas há também alguns (poucos) exemplares de arquitetura medieval, bem como edifícios de estilo neoclássico e art nouveau (finais do século XIX e inícios do século XX), sobretudo ao longo da Calea Victoriei, que valem a Bucareste a alcunha de “Micul Paris” (pequena Paris).

Calea Victoriei, uma das ruas mais bonitas de Bucareste

E mesmo entre a arquitetura comunista, nem tudo são blocos monolíticos destinados a albergar o maior número de pessoas possível. A prová-lo está o imponente Palácio do Parlamento e o conjunto arquitetónico que se estende desde a Piața Constituției ao longo da Bulevardul Unirii, formado por fontanários e edifícios com fachadas em mármore e elementos artísticos.

Palatul Parlamentului, uma das heranças deixadas pelo regime comunista. É o edifício mais pesado do mundo.

Com a transição para um regime democrático, a economia romena evoluiu na direção do capitalismo e da globalização, com o consequente crescimento do setor terciário (serviços), o que veio redefinir o aspeto da cidade. Um pouco por todo o lado, não param de surgir centros comerciais e modernos edifícios de escritórios.

A nova face de Bucareste. Ao centro, o centro comercial Promenada; à esquerda, a Sky Tower, inaugurada em 2012, que com 137 metros é o edifício mais alto da cidade (foto de Dan Mihai Balanescu, gamada desta página que tem mais fotos excelentes)

Para quebrar um pouco o “cinzentismo” de uma cidade padronizada, utilitária e orientada para o trabalho, não faltam parques com lagos e espaços verdes. Destaco os parques de Herăstrău, Tineretului, Carol I, Titan/Alexandru Ioan Cuza e os jardins de Cismigiu, só para citar alguns.

Parcul Herăstrău, com um exemplo dos contrastes arquitetónicos presentes na cidade: à esquerda, as torres do City Gate, à direita a "comunista" Casa Presei Libere (então Casa Scânteii)

Falta referir que Bucareste é uma cidade segura. Nas ocasiões em que andei pelas ruas a meio da noite não me aconteceu nada. Chego a ir correr para os parques ou pelas ruas bem para lá da meia-noite e é tranquilo, e se há coisa que aqui não falta é seguranças. 
Por falar em noite… Bucareste à noite não é uma cidade escura onde nada acontece. A nightlife (coisa a que eu nem ligo muito) não fica a dever nada à de outras capitais europeias, sendo o Centrul Vechi a área de diversão noturna da cidade por excelência. Na maioria dos bares e clubes não se paga para entrar e não há consumo obrigatório.

Piața Unirii ao anoitecer (foto: Octav Dragan)

Em suma, Bucareste é um bom local para viver. Encontro nesta cidade apenas um defeito: é demasiado grande e tem gente a mais. Mas não é nada que não se aguente (que remédio, não é?). Para compensar, o sistema de transportes razoavelmente bem organizado, com redes de metro, elétrico e autocarro, o que facilita as deslocações dentro do vasto espaço urbano.
Numa nota mais pessoal, aqui sinto-me em casa. Estou ambientado à cidade, e apesar de não falar romeno fluentemente sei o suficiente para me desenrascar. Estou melhor, muito melhor, aqui do que alguma vez estive em Portugal. Só me falta catrapiscar uma moça romena, mas isso é outra história...

E quanto à Roménia?

À semelhança do que escrevi sobre a capital, a generalidade das pessoas não sabe o que é a Roménia. Os preconceitos (mais uma vez) apresentarão este país como sendo pobre, antigo satélite soviético, perdido algures na Europa de Leste e terra de origem de muitos emigrantes que se sujeitam a trabalhos pesados nos países ocidentais (ou, pior que isso, dedicam-se à criminalidade). Mais uma vez, é preciso ver para além dos preconceitos e conhecer a realidade antes de debitar ideias pré-concebidas, baseadas na possível realidade de há 20 anos atrás.

Vista sobre Brașov (possivelmente a minha cidade favorita na Roménia)

Há ainda muita pobreza, sobretudo nas áreas rurais, mas a Roménia é um país em franco desenvolvimento, seguro e com potencial turístico. Há belas paisagens e boas gentes, há montanhas, praias, natureza, cidades pitorescas e património histórico. Falta "apenas" uma melhor promoção turística, que saiba vender o potencial deste país para além das suas fronteiras, o que de resto é comum a outros países do Leste europeu. Urge mudar mentalidades a respeito da forma como é vista esta zona da Europa. A Cortina de Ferro caiu há quase 30 anos.

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