quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A aventura Ucraniana: Lviv, Kyiv e três mil quilómetros sobre carris

Na semana anterior ao Natal pedi férias, mas em vez de ir a Portugal, como qualquer bom filho teria feito, preferi pegar na mochila e atirar-me para mais uma viagem. Estreei o passaporte e, pela primeira vez, cruzei a “segurança” das fronteiras da União Europeia e do Espaço Schengen, rumo a um mistério chamado Ucrânia.


Bucareste dista uns 600 quilómetros da fronteira ucraniana, a norte, pelo que a primeira etapa da viagem terminou ainda em solo romeno, na cidade de Cluj-Napoca. Uma viagem de 11 horas de comboio, durante a noite e através dos Cárpatos, fez a ligação da capital nacional até à capital da Transilvânia, até então ainda em falta na minha lista de destinos visitados neste país.
As expectativas relativamente a Cluj eram elevadas, no entanto a cidade acaba por desiludir um pouco. Apesar de se tratar do segundo maior centro urbano da Roménia, Cluj é mais uma cidade pequena, pacata e acolhedora, como Sibiu ou Brașov, mas sem o encanto destas duas. Para além da central Piața Unirii, dominada pela Igreja de São Miguel e pelo monumento ao rei Matias Corvino, e do percurso pela Bulevardul Erolior até à Piața Avram Iancu, onde se destacam a Catedral Ortodoxa e o edifício do teatro e da ópera, pouco mais há para ver pelo centro. Mesmo o facto de Cluj albergar a maior universidade da Roménia, com mais de 40 mil estudantes, parece não trazer um movimento especial à cidade. Ou então estava tudo de férias e visitei esta terra na altura errada.

 Monumento a Matias Corvino e Igreja de São Miguel

Catedral Ortodoxa na Piata Avram Iancu

De Cluj levo na memória a espetacularidade do Enigma Café (o primeiro bar do mundo cuja decoração interior é movida a energia cinética) e as várias colunas de marca Bose espalhadas pelo relvado do Parcul Iulius. A cidade não cumpriu as expectativas, mas não deixa, ainda assim, de merecer uma visita.

Enigma Café

Segunda paragem: Sighetu Marmației, junto à fronteira com a Ucrânia. Após uma noite passada na estação ferroviária de Cluj, o comboio rumo aos confins de Maramureș arrancou às primeiras horas da manhã. Da localidade fronteiriça pouco há a dizer, a não ser que deve ter a maior concentração de igrejas por quilómetro quadrado em toda a Roménia. Muitas igrejas há neste país (mais que hospitais ou escolas, diz-se), muito religioso é este povo.
A passagem da fronteira para a Ucrânia fez-se a pé, atravessando a ponte que cruza o rio Tisa. Do outro lado está Solotvyno, um vilarejo rural soturno e de aspeto descurado, qual cidade fantasma soviética. É desta localidade ucraniana, onde 90 por cento dos habitantes são romenos ou húngaros, que parte o comboio noturno para Lviv. Agora que penso, foi pena na altura não saber a composição étnica da população. Podia ter perguntado em romeno onde é a estação, em vez de apontar feito parvo para um papel com frases em ucraniano e seguir indicações pouco claras, que me levaram ao destino pelo meio de barracões abandonados.

 Rio Tisa na fronteira entre a Roménia e a Ucrânia


Solotvyno (imediações da estação ferroviária)

Até Lviv, são mais de 12 horas de viagem, ao longo de 447 quilómetros, por 88 hryvnas (pouco mais de 3 euros). Lviv é a cidade dos leões (Leopolis em latim), e curiosamente o primeiro contacto com esta terra esteve também relacionado com felinos. À saída da estação e a caminho do centro, o pequeno-almoço foi tomado no Cat Café, um simpático espaço onde vários gatos coabitam e interagem com os clientes. Um conceito até então desconhecido para mim, e que por isso marca uma das boas recordações que guardo de Lviv.
Posteriormente, houve tempo para passear pelas ruas e contactar com a história de uma cidade que, só ao longo do século XX, pertenceu a cinco estados – Império Austro-Húngaro, Polónia, Alemanha Nazi, União Soviética e, finalmente, Ucrânia.
Um bom local para começar é a Praça delimitada pela avenida Svobody, onde se destaca o edifício do teatro nacional académico, e a praça Rynok, centro da cidade por excelência. Aqui, é obrigatório subir à torre da Câmara Municipal, para contemplar a vista de Lviv a 360º.
Por falar em vistas abrangentes, outro ponto para contemplar a panorâmica da cidade é a colina do castelo, local de uma antiga fortificação medieval da qual praticamente nada resta. No que respeita ao património religioso, destaque para a catedral Latina, a Igreja da Assunção, ladeada pela torre Korniakt, e a igreja dominicana, cuja cúpula constitui uma das landmarks da cidade.

Teatro Nacional Académico de Lviv

Vista de Lviv a partir da torre da Câmara Municipal, com a cúpula da igreja dominicana e a Torre Korniakt em destaque

Concluída a visita, havia mais um comboio para apanhar, rumo a Kiev (Kyiv em ucraniano, e assim me referirei à cidade doravante). A viagem de 684 quilómetros constituiu a etapa ferroviária mais extensa da viagem, mas simultaneamente a mais rápida (apenas 5 horas) e confortável – em primeira classe. É, tive de ir à Ucrânia para me estrear a viajar em primeira classe.

Estação ferroviária de Lviv

Na capital ucraniana conheci pessoalmente uma rapariga com quem vinha falando online há cerca de um ano. Após o encontro na praça Sofiivska, com a Catedral de Santa Sofia em pano de fundo, a moça fez questão de nos mostrar a sua cidade, ainda que as condições meteorológicas fossem pouco convidativas a passeios. O tour em contra-relógio (porque mais uma vez havia um comboio para apanhar no próprio dia) começou com uma subida à torre Mikhaylovskaya kolokolnya, para admirar as vistas sobre o Mosteiro de São Miguel das Cúpulas Douradas, a praça Mykhailivs’ka e, ao fundo da Volodymyrs’kyi Passage, uma nova perspectiva da Catedral de Santa Sofia. Seguiu-se uma passagem pela Igreja de Santo André e a descida da histórica Andriivs’kyi Descent, uma das mais belas ruas da cidade. 

 Estátua de Bohdan Khmelnytsky junto à Catedral de Santa Sofia

Torre Mikhaylovskaya kolokolnya e, por trás, o Mosteiro de São Miguel das Cúpulas Douradas 

Andriivs’kyi Descent

Uma caminhada pela marginal ao longo do rio Dnipro levou-nos até ao Memorial dedicado aos fundadores da cidade e ao impressionante conjunto arquitectónico que é o Mosteiro de Pechersk Lavra. Merecem ainda uma menção o parque Mariyinski, a Praça da Independência e a catedral de St. Volodymyr onde, cumprindo uma promessa, convidei a rapariga para sair. Ela aceitou. Como não havia tempo naquele dia, o “date” acontecerá na próxima ocasião em que nos encontrarmos, não sei quando nem onde. Pelo meio, houve um almoço típico ucraniano, composto por borsh, kotleta po-kyivsky (frango à Kyiv) e varenyky.

Praça da Independência

Mosteiro de Pechersk Lavra (não lhe consegui tirar fotos de jeito, pelo que tive de ir buscar esta à Internet)

Kyiv surpreende pela positiva. Estava à espera de encontrar uma cidade um pouco ao estilo comunista de Bucareste, de avenidas largas, blocos cinzentos e pouco turística. Acabei por descobrir uma cidade com uma história que remonta ao século V, rica em monumentos impressionantes e com uma atmosfera singular, onde a herança soviética, ainda notória, se combina com as influências que sopram da Europa Ocidental. Uma cidade surpreendentemente bonita e turisticamente underrated, que deveria, e merece, ser mais conhecida.
Devo contudo dizer que, apesar de estar agradecido a Olya pela atitude que teve, conhecer Kyiv pelos olhos de uma habitante local fez-me concluir que há uma grande diferença entre a cidade que os locais mostram e a cidade que o viajante descobre. A primeira via pode até ser mais completa e mostrar locais e coisas que de outro modo ficariam por conhecer, mas pessoalmente tendo a preferir a segunda. Espero por isso ter, no futuro, uma oportunidade de voltar e explorar a capital da Ucrânia à minha maneira.

O regresso à Roménia fez-se em duas etapas – a primeira, de comboio noturno até Chernivtsi, a 40 quilómetros da fronteira, e a segunda… pois, quanto a essa, o objetivo era atravessar a fronteira mas não havia plano definido.
Tentou-se o hitchhiking e, 15 quilómetros a pé, três boleias e uma interceção pela polícia ucraniana depois, chegámos à Terra Prometida, que naquele dia se chamava Suceava. Dali saiu o comboio rumo à Gara de Nord de Bucareste. O ponto de partida da viagem foi também a sua meta, completando um circuito de cinco dias e quase três mil quilómetros de comboio, num total de 54 horas sobre carris.

Mapa da viagem (esqueci-me de fazer a legenda: vermelho significa comboio, azul significa caminhada/hitchiking)

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