quarta-feira, 21 de outubro de 2015

The Lonely Traveler, pt. 3 - Budapest

O terceiro capítulo da saga Lonely Traveler traz uma viagem diferente. Depois de idas de avião a Dublin e Helsinki a partir de Portugal, houve lugar à primeira viagem a partir da Roménia, utilizando como meio de transporte o comboio. O destino: Budapeste, capital da Hungria e Pérola do Danúbio.

Já é público que tinha planeado um Inter Rail para o verão passado, que ficou sem efeito, e no qual a capital húngara era um ponto de paragem obrigatória. Pois bem, perante a impossibilidade de fazer, para já, a referida odisseia pelos caminhos-de-ferro da Europa, decidi fazer um mini-Inter Rail. Da Gara de Nord de Bucareste, onde apanhei um comboio às 5h45 (o que só foi possível fazendo direta) até à estação de Keleti em Budapeste, vai uma distância de 900 quilómetros, completados em 15 horas (quem quiser fazer contas percebe o quão rápidos são os comboios para estes lados).
Cheguei por isso a Budapeste já ao cair da noite, apenas com vontade de procurar o hostel e instalar-me, ficando as primeiras explorações adiadas para o dia seguinte.

Literatura apropriada para a viagem

Chegada à estação de Keleti

1. Chuva
É a palavra que marca esta viagem. Quando decidi visitar Budapeste tive o cuidado de consultar as previsões meteorológicas e escolher dias sem previsão de chuva, uma vez que não é muito agradável explorar uma cidade com água a cair pela cabeça abaixo. Mas de nada me serviu. O primeiro dia amanheceu com chuva ininterrupta, e assim continuou. E o segundo/último dia foi igual. Não tive outro remédio que não fosse investir cerca de 3000 forints na aquisição de um guarda-chuva na primeira loja de souvenirs que me apareceu à frente, uma vez que o céu cinzento e carregado não dava tréguas. Foi debaixo de precipitação constante que deambulei pela cidade, e por isso as memórias que guardo de Budapeste são um pouco semelhantes às que guardo de Londres: uma cidade cinzenta e molhada.

2. Dois dias em Budapeste
A capital húngara, sendo uma das maiores cidades da Europa, precisa de um pouco mais de dois dias para ser visitada como deve ser. Se o tempo é curto, convém definir prioridades para rentabilizar o tempo ao máximo. 
Nesse sentido, comecei por percorrer a Andassy út a partir de Oktogon, com passagem pelo edifício da Ópera, uma obra neo-renascentista dos tempos do Império Austro-Húngaro (1884). No final desta artéria surge, imponente, a Szent István Bazilika, ou Basílica de Santo Estêvão (1905). A fachada oeste desta catedral católica, com as suas duas torres erguidas em direcção aos céus a uma altura de 96 metros, é uma das vistas imperdíveis do centro histórico de Budapeste. 

Catedral de Santo Estêvão

Continuando em direcção ao rio Danúbio, obtém-se a primeira vista da outra margem, Buda, com o seu belo castelo em plano de destaque. A fazer a travessia entre Buda e Pest, as duas cidades que se juntaram para formar a atual metrópole em 1873, está a ponte Széchenyi Lánchíd, ou a Ponte das Correntes (a primeira ponte sobre o Danúbio, datada de 1849). 

Vista da Ponte das Correntes a partir de Pest

Um dos leões que guarda a entrada da ponte. Lá atrás, o Castelo de Buda

Já do lado de Buda, impõe-se uma subida ao referido Castelo. Construído no século XIV mas sujeito a várias ampliações e reconstruções ao longo da história (foi destruído durante o cerco cristão de 1686 e novamente durante a Segunda Guerra Mundial), este antigo Castelo Real que domina as colinas de Buda é um ponto incontornável e um ícone da cidade. Para lá chegar há um funicular, mas nada substitui uma caminhada pela rua empedrada, com passagem pelo bastião circular da encosta sul.

Castelo de Buda à noite, visto a partir de Pest

Vista sobre o Danúbio e a margem de Pest a partir do Castelo de Buda

Continuando pelo interior deste complexo arquitectónico tem-se acesso à parte antiga de Buda, um testemunho bem preservado da Europa medieval. De referir que todo o conjunto composto pelo Bairro do Castelo de Buda, as margens do Danúbio e a Andrassy utca são Património Mundial da UNESCO desde 1987.
Em Buda, merecem destaque as ruas típicas como a Fortuna útca, a Igreja de Matias (Mátyás-templom, nomeada em honra de Matias Corvino, monarca do século XV) e o Bastião dos Pescadores, uma bela estrutura de estilo neo-gótico datada dos inícios do século XX, e um miradouro privilegiado sobre o rio e a margem de Pest.

Fortuna útca

Igreja de Matias

Bastião dos Pescadores

Vista da cidade a partir do Bastião dos Pescadores

Porém, quando se fala em miradouros, nada supera Géllert-hegy. Esta colina com 235 metros oferece uma panorâmica única e abrangente sobre Buda e Pest, com o Danúbio de permeio. No topo encontra-se a fortificação de Citadella e a Estátua da Liberdade, inicialmente um memorial soviético que atualmente homenageia todos os que se sacrificaram pela liberdade e independência do país.

Vista de Budapeste a partir da colina de Géllert

Atravessando a Szabadság híd (Ponte da Liberdade) encontra-se o Mercado Central da cidade, datado de finais do século XIX, que convida a conhecer e a provar os mais variados produtos e iguarias da gastronomia local. Logo ao lado inicia-se a Vaci útca, a “rua direita” de Budapeste e um dos pontos comerciais da cidade por excelência, onde dei por concluído o passeio inaugural.
O segundo dia começou novamente em Oktogon, mas desta vez para percorrer a histórica e emblemática avenida Andrassy em sentido ascendente, em direcção à Praça dos Heróis (Hősök tere). Um espaço amplo, cujo centro é dominado pelo Memorial do Milénio, construído por ocasião dos mil anos do país (1896), e que reúne estátuas de figuras relevantes da história magiar. 

Memorial do Milénio, na Praça dos Heróis

Integrado no vizinho Parque da Cidade (Városliget) encontra-se o Castelo de Vajdahunyad, monumento que parece encerrar em si histórias da época medieval. No entanto, este castelo foi igualmente construído no âmbito do milésimo aniversário da nação húngara, há pouco mais de um século, e tem a particularidade de ter sido erigido inicialmente como uma estrutura temporária em madeira. A sua popularidade acabou por obrigar a uma nova edificação, com materiais mais permanentes.

Castelo de Vajdahunyad

Seguindo pela Dózsa György út surge o Estádio Nacional, que carrega o nome de Ferenc Puskás, figura maior do futebol magiar nas décadas de 1940 e 1950. Inaugurado em 1953, em pleno período de influência soviética no país, este estádio grandioso, cinzento e austero, como convém a uma obra de estilo soviético, parece evocar, por entre a sua decadência atual, esses tempos gloriosos de outrora. Não admira por isso que esteja projetada a construção de um novo estádio, a concluir dentro de três anos. Segue-se nova passagem pela estação ferroviária de Keleti que, ficando nas imediações, merece um olhar mais atento que o conferido no momento da chegada. 

Estádio Nacional Ferenc Puskás

Praça Baross, em frente à estação de Keleti

Olhando para o mapa da cidade, um ponto ainda não explorado implora por uma visita: a ilha Margarida (Margitsziget). Esta ilha, acessível a meio da ponte homónima sobre o Danúbio, revela-se perfeita para observar os encantos de um dia chuvoso de outono, com o nevoeiro a pairar sobre as árvores e os jardins bem tratados. E como há por ali um mini zoo, é possível observar estes encantos na companhia de coelhos, esquilos e corsas.

Vista de Budapeste a partir da Ponte Margarida


Uma tarde chuvosa de Outono na Ilha Margarida

Para o final ficou o ex-libris da cidade, que se ergue, majestoso, nas margens do Danúbio: o edifício do Parlamento (Országház). Concluído em 1904, é o edifício mais alto de Budapeste, em igualdade com a Basílica de Santo Estêvão. A título de curiosidade, refira-se que a altura de 96 metros atingida pelos dois edifícios se refere aos mil anos do país (1896), e a igualdade entre ambos pretende significar que o pensamento racional (representado pelo Parlamento) e o pensamento espiritual (simbolizado pela Basílica) têm a mesma importância.

Perspetiva do Parlamento de Budapeste

Umas centenas de metros mais a sul ao longo da marginal surge, discreto e surpreendente, o memorial Cipők a Duna-parton, ou Sapatos no Danúbio. Seis dezenas de sapatos esculpidos em ferro, alinhados ao longo do rio, que lembram os judeus ali assassinados pelo exército Nazi entre 1944 e 1945. As vítimas eram, segundo reza a História, obrigadas a descalçar-se antes de serem executadas e caírem ao rio, deixando para trás os sapatos agora imortalizados. Este memorial simples mas duro resume o que é visitar Budapeste: um encontro permanente com a História, num dos palcos mais relevantes da história europeia do século XX.

Memorial Sapatos no Danúbio

3. O regresso
Como tudo o que é bom tem um fim, após dois dias a explorar a capital húngara era chegada a hora de voltar a Bucareste. Mais 15 horas de comboio. No entanto, a viagem de regresso foi bem melhor que a de ida, embora o trajeto fosse exactamente igual. O tempo solarengo e a sonolência resultante de uma noite em branco tornaram a primeira travessia desinteressante, enquanto no regresso, o tempo chuvoso e o nevoeiro conferiam um outro encanto, e um certo ar de mistério, aos campos e florestas da Roménia.
Vi com um olhar mais atento algumas localidades que desfilavam do lado de fora da janela, das quais destaco Vinga e Topleţ. E, claro, merece destaque o troço entre Orşova e Dobreta-Turnu Severin, à beira do Danúbio, num novo encontro com este curso de água que ali serve de fronteira natural entre a Roménia e a Sérvia. Entretanto fez-se noite e entrou no comboio uma rapariga foarte frumoasa de olhos claros, que centrou as minhas atenções até a perder de vista no meio da multidão na chegada à Gara de Nord. Estava seriamente a pensar em pedir-lhe o número de telemóvel (não sei bem para quê), mas ela deve ter lido os meus pensamentos e tratou de desaparecer para me facilitar a tarefa. Restou-me apanhar o metro para a minha residência em Dristor, que já se fazia tarde. Que final de viagem agridoce.

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