segunda-feira, 19 de outubro de 2015

The Lonely Traveler, pt. 1 - Dublin

1. Introdução

Verão de 2013. Depois de um ano sem férias, desta vez havia direito a paragem estival. Duas semanas. O que fazer com essa segunda quinzena de Julho? Acordar às duas da tarde, almoçar, passar a tarde no computador a jogar ou a ver filmes e séries, jantar, passar a noite no computador a jogar ou a ver filmes e séries, e cair finalmente na cama às tantas da madrugada? O programa não era desagradável, bem pelo contrário, mas não é esse o tipo de férias que mais tarde me daria gosto recordar. Seriam 15 dias de ociosidade e lazer, mas que não teriam uma aura de lendários, não teriam uma história para contar. Em suma, não acrescentariam nada à minha vida.
Uma viagem. Isso é que era. E porque não? Ao fim de algum tempo a trabalhar, havia capacidade financeira para uma viagem low cost. O que o impedia? Pois, a indecisão. E a falta de companhia também. Nunca viajara sozinho. Nas viagens anteriores, inseri-me num grupo de gente. Desta vez, sem colegas de curso ou concursos ganhos, não teria essa sorte. Mas essas viagens acabaram por me dar algum à-vontade nessa matéria. Fiquei a saber como funciona o processo de embarque, e tive o meu baptismo de voo. Além disso, apesar de viajar em grupo, a minha tendência para o isolamento levou-me a viver experiências solitárias, que me fizeram perceber que viajar by myself pode até ser melhor do que ir acompanhado.
Assim, aproveitei essas primeiras viagens para exorcizar alguns fantasmas, típicos de quem cresceu no interior e nunca saiu da terrinha. “Ir daqui para o Porto ou para Lisboa, olha que frete”, “depois ainda é preciso chegar ao aeroporto, que confusão e que gastar de dinheiro”, ou “como é que me vou orientar no pandemónio que é um aeroporto” eram respostas automáticas de mim para mim, sempre que me atrevia a pensar em viagens. Era preciso “tirar o novelo do cu”, Londres e as Tall Ships Races fizeram-no. 
Estava psicologicamente preparado para arriscar. Quanto à companhia, namoradas é algo que me está vedado, e os poucos amigos não estavam para aí virados, fosse porque tinham férias só em agosto, porque não tinham dinheiro, ou simplesmente por verem nas viagens um gasto inútil. “Se estás à espera de alguém com quem viajar, nunca vais a lado nenhum”, conclui. As promoções no site da Ryanair fizeram o resto. Destino escolhido: Dublin. Uma escolha algo condicionada pelo facto de ir sozinho, pois apesar de a capital irlandesa figurar então na minha lista de locais a visitar, estava longe de ser uma prioridade. Porém, Dublin é uma viagem de nível “easy”. É perto (pouco mais de duas horas de voo), pertence à União Europeia (não é preciso passaportes nem vistos) e à Zona Euro (não é preciso trocar dinheiro), e por isso é um destino perfeito para alguém que se está a iniciar em viagens solitárias. Voo reservado, hostel idem. Partida marcada para 16 de julho.


2. A chegada

Depois de uma jornada de 9 horas (lá estão os efeitos da interioridade outra vez), ali estava eu em plena O’Connell Street, a apreciar o movimento de Dublin e a encher os pulmões de alegria. “Consegui, caraças!”. Mais um fantasma exorcizado. Uma coisa é estar psicologicamente preparado para viajar sozinho, outra é fazê-lo. E fazê-lo com sucesso. 
A parte mais difícil estava cumprida, restava procurar o hostel. Sky Backpackers, bonito nome. Ficava em Litton Lane, uma viela junto a Bachelors Walk, uma marginal do rio Liffey, e a escassos metros da O’Connell Street, o centro de Dublin por excelência. Melhor localização não se podia pedir. Tinha, além disso, a particularidade de já ter sido um estúdio de gravação que acolheu nomes como Van Morrison, The Cranberries, David Bowie, Def Leppard ou U2. Dentro desta herança musical, eram prometidos gigs ao vivo, mas infelizmente não apanhei nenhum na semana em que lá estive. Fora isso, excelente escolha. Também havia uma bonita recepcionista, de pele branquinha, olhos claros e cabelos de uma tonalidade arruivada, qual Rose Leslie. Penso que se chamava Mary, e muito provavelmente era irlandesa. À minha boa maneira, não troquei mais palavras com ela para além do “see ya!” quando saia, ou do “hi!” quando voltava. Esta timidez atroz há-de perseguir-me sempre.

3. Baile Átha Cliath

Feito o check-in, era tempo de começar a contactar com as ruas de Baile Átha Cliath, o nome da cidade em gaélico. E a primeira impressão que tive foi de que, apesar de ser um turista itinerante e solitário numa cidade estrangeira, nunca me senti um estranho. Os tempos modernos da aldeia global têm esse efeito nas grandes cidades, e Dublin não foge à regra. A capital irlandesa é uma cidade cosmopolita, e pelas principais ruas caminham centenas de pessoas das mais variadas origens, falando em diversos idiomas, e também muitos turistas de máquina fotográfica em punho. Uma pessoa sente-se como mais uma peça daquele puzzle de diversidade cultural que caracteriza a cidade. 
Apesar disso, Dublin continua a ser uma cidade tipicamente irlandesa. Ruas empedradas, ladeadas de construções de arquitectura georgiana (séculos XVIII e XIX), pontuadas por pubs, de onde saem acordes de banjo ou violino, instrumentos intrínsecos à música tradicional irlandesa. Entrar num desses pubs e apreciar as alegres sonoridades da música deste país é um must, na companhia de uma pint de cerveja Guinness (eu dispensei esta parte). Por outro lado, temos a moderna capital europeia, com novos edifícios de escritórios e landmarks de arquitectura contemporânea, como a ponte Samuel Beckett ou o Convention Centre. É por isso uma cidade de contrastes, onde o velho e o novo, o passado e o futuro, a História e a modernidade andam de mãos dadas.

Edifícios típicos da capital irlandesa, de arquitetura georgiana

A ponte Samuel Beckett (2009) e o Convention Centre (2010), ícones da "nova" Dublin

Outra característica de Dublin que salta rapidamente à vista é a sua dimensão, relativamente pequena quando comparada com outras capitais nacionais, e o facto de todas as atracções turísticas estarem reunidas num raio de, no máximo, 10 quilómetros. É, por isso, uma cidade que se pode conhecer integralmente a pé, estando sempre em contacto com a sua essência. Não há necessidade de desaparecer num buraco e emergir à superfície noutra ponta da cidade, depois de uma viagem num comboio subterrâneo. Tanto assim é que Dublin nem sequer tem metro. O que há de mais parecido é o tram LUAS, com apenas duas linhas que cruzam a cidade em direção aos arredores.

4. Highlights

É impossível falar de Dublin sem mencionar os seus parques. A título de curiosidade, refira-se que esta cidade tem mais espaços verdes por quilómetro quadrado do que qualquer outra capital europeia, sendo que 97 por cento dos seus residentes vivem a menos de 300 metros de um parque. Nas minhas deambulações, visitei primeiramente o Garden Of Rememberance, um espaço de concepção simples e graciosa, que homenageia quem deu a sua vida pela causa da liberdade irlandesa. Passei também por Merrion Square, onde é imperativo visitar o memorial de Oscar Wilde e ler algumas das suas mais célebres citações. Numa caminhada mais longa, estive ainda no extenso Phoenix Park, uma enormidade com 11 quilómetros de extensão e 700 hectares, pontuada por pequenos lagos e onde aparentemente há veados em completa liberdade (ouvi dizer, infelizmente não vi nenhum). É lá que se situa Áras an Uachtaráin, que é como quem diz a residência oficial do presidente irlandês. Deixo o melhor para o fim: o verdejante St. Stephen’s Green, o principal e mais antigo espaço verde da cidade, onde o busto do escritor James Joyce serviu de companhia numa pausa retemperadora à sombra das frondosas árvores vizinhas.

Garden Of Rememberance

Memorial de Oscar Wilde em Merrion Square

Phoenix Park

St. Stephen's Green

Junto a este parque encontra-se a Grafton Street, uma das principais ruas comerciais de Dublin, que merece ser visitada pela beleza das fachadas que a ladeiam, ou pela omnipresente animação de rua. Até durante a noite há artistas a presentear os transeuntes com as suas atuações, e o mesmo acontece por outras artérias da cidade. 
Não há, porém, sítio mais animado em Dublin que o Temple Bar. É a alma da cidade, o seu centro cultural, e ponto de passagem obrigatória para quem gostar da vida nocturna. Ruas estreitas, pubs animados e um fervilhar constante de vida compõem este bairro típico, de raízes medievais. Figura aqui outra atração turística, o famoso pub The Temple Bar, com a sua icónica fachada vermelha. O tema “Galway Girl” interpretado ao vivo neste pub é uma das melhores memórias que guardo da minha estadia em Dublin. Talvez por causa de uma beleza americana de Columbus, Ohio, que conheci no hostel. Cabelos castanhos, olhos escuros, pele morena e apelido polaco. Não era de Galway, na costa oeste do país, mas ia para lá depois de uns dias em Dublin. Infelizmente, a nossa interacção não foi tão longe como nessa música de Steve Earle, resumindo-se a apresentações e meia dúzia de palavras. Nem se esperava de mim outra coisa. Para encerrar o tema “raparigas”, falta-me falar de Elisa, jovem italiana de sorriso simpático oriunda de Roma, com quem dei um breve passeio nocturno pela cidade. Apenas isso, e a partir daí não soube mais nada dela.

Grafton Street

Fachada do pub "The Temple Bar"

Música ao vivo no "The Temple Bar"

Voltando à componente turística, um passeio por Dublin não fica completo sem uma passagem por um dos ex-libris da cidade: a Ha’penny Bridge, ponte pedonal sobre o rio Liffey cujo nome (não oficial) se refere ao preço inicialmente cobrado pela sua travessia. Umas centenas de metros mais para oeste, uma outra ponte, a Father Mathew Bridge, carrega o significado histórico de estar situada sensivelmente no mesmo sítio da original Dublin Bridge, que durante séculos foi a única ponte da cidade. Por falar em História, o Castelo de Dublin, na margem sul do Liffey, também merece uma visita. Fundado como um importante complexo defensivo em 1204, este castelo foi também a sede fortificada do governo britânico na ilha, sendo que do conjunto medieval apenas subsiste a Record Tower, datada de 1228. Na já mencionada O’Connell Street, nomeada em honra do líder nacionalista Daniel O’Connell, pode ainda ver-se o Spire Of Dublin (oficialmente Monument Of Light), um monumento em aço com 120 metros de altura, concluído em 2003. Seguindo esta rua para sul, atravessando a O’Connell Bridge sobre o Liffey, encontra-se o Trinity College. Trata-se da universidade mais antiga da Irlanda, fundada no século XVI, e que conta na sua lista de alumni com nomes como Oscar Wilde, Bram Stocker ou Samuel Beckett. No que diz respeito ao património religioso, No que diz respeito ao património religioso da cidade, destacam-se as catedrais góticas de Christchurch, construída em 1038, e de St. Patrick, datada de 1191.

O'Connell Street, com o Spire Of Dublin em destaque

The Custom House, antigo edifício alfandegário do Porto de Dublin

Castelo de Dublin (Record Tower)

Trinity College

St. Patrick's Cathedral

Resta passar em revista algumas memórias soltas: a caminhada extenuante só para ver a fachada do Aviva Stadium; outra caminhada só para visitar uma rua chamada Old Cabra Road, que me levou através dos bairros vitorianos dos arredores; e ainda outra, só para dizer que estive à porta dos locais onde se faz o whisky Jameson e a cerveja Guinness (não entrei, porque não me interessava); os períodos de descanso deitado na relva dos diversos parques de Dublin; os dubliners aflitos com uma vaga de calor de vinte e muitos graus, que para mim eram “fresquinho”, pois vinha habituado aos 40°C da Covilhã; os finais de tarde à beira Liffey; os agradecimentos em pensamento aos ingleses por terem invadido a Irlanda, porque a língua gaélica é incompreensível e dá jeito estar tudo traduzido para inglês; e ainda as horas perdidas nas lojas de souvenirs Carroll’s, a ouvir as músicas irlandesas que saíam das colunas (Galway Girl também, pois claro).

Pôr do Sol junto ao Rio Liffey

5. Atravessando a Ilha Esmeralda

Uma semana em Dublin chega e sobra para conhecer a cidade. Quatro dias é o ideal, até porque ao quinto dia dei por mim a visitar sítios pela segunda vez, como Merrion Square ou o Trinity College. E mesmo nos quatro dias anteriores, o Temple Bar foi local de passagens incontáveis, tal como O’Connell Street, Dame Street, ou a Ha’penny Bridge.
Sobrava um dia inteirinho antes de regressar a Portugal, e o desejo de conhecer mais da Irlanda para além da sua capital levou-me a entrar num autocarro, para uma excursão até aos Cliffs of Moher, do outro lado da ilha. Uma boa oportunidade para atravessar o país e admirar, pela janela, as paisagens verdejantes da Ilha Esmeralda.

Paisagem típica Irlandesa

Depois de uma breve paragem na cidade de Limerick, cinzenta e austera nas margens do rio Shannon, aí estavam as majestosas falésias, a estabelecer uma fronteira abrupta entre terra e mar. É um daqueles locais em que um homem se sente pequenino, ao admirar a extensão e altura dos penhascos, com o mar a rugir lá em baixo. É também um bom local para “pensar na vida”, sentado na relva fofa e com o olhar perdido nas lonjuras do Atlântico. Apesar de algum nevoeiro, era possível ver ao fundo umas pinceladas escuras nas águas calmas da Galway Bay: as Aron Islands, cujo nome confundi primeiramente com as Iron Islands de Game Of Thrones (a fonética é quase igual). Um último olhar a este santuário natural, mais uns cliques na máquina fotográfica, e foi altura de desaparecer por baixo das rochas, onde está escavado um interessante e interativo Welcome Center. Tudo o que há para saber sobre as falésias, está ali.

Cidade de Limerick, banhada pelo rio Shannon

Cliffs of Moher

No caminho de volta a Dublin, ainda houve lugar a uma passagem pela área rochosa do Burren, para mais umas belas panorâmicas da Galway Bay, pela pitoresca vila portuária de Kinvara, e pelo antigo mosteiro de Corcomroe Abbey (século XIII).

Corcomroe Abbey


Kinvara

E assim terminou a primeira experiência pessoal de “lonely traveling”. À chegada ao Porto, no dia seguinte, lembrei-me de uma frase proferida por Leonardo Di Caprio no filme “The Beach”: “And about traveling alone... fuck it. If that's the way it has to be, that's the way it is". E assim continuará a ser, se houver mais oportunidades. Pena é que não consiga catrapiscar uma bonita moça francesa pelo caminho.

Sem comentários: