segunda-feira, 19 de outubro de 2015

The Lonely Traveler, pt. 2 - Helsinki/Tallinn

1. A chegada
O avião começa a perder altitude, e fura o manto de nuvens. Vêem-se vastas manchas de floresta, pontuadas por povoações e estradas, nas quais os automóveis se assemelham pequenos brinquedos. Estou a chegar à Finlândia, sentado no lugar 28F do voo 798 da TAP e vou olhando pela janela, para o belo cenário que este país oferece.
Mais um ano, mais uma viagem solitária. Tem de ser. Viajar continua a ser das poucas coisas (senão a única) que dá sentido à minha vida, mesmo que só o faça uma vez ao ano, e é seguramente a única que valerá a pena recordar no futuro, quando pensar nostalgicamente na minha juventude.
A pista do aeroporto de Helsinki-Vantaa aproxima-se, e concentro-me na paisagem, que vai ganhando escala real. Continuo a ver florestas de pinheiro silvestre, paredes meias com a pista de aterragem. Percebo que este país tem bosques por todo o lado, o que me traz memórias da Suíça. O Airbus A-320 luso toca solo finlandês, quatro horas e meia depois de ter levantado voo do Aeroporto da Portela. Recebe-me um tempo cinzento, a ameaçar chuva, mas sem concretizar. Mesmo como eu gosto. Apanho o autocarro para Helsínquia, que fica a uns 20 quilómetros dali, seguindo as instruções que vi na Internet. Bendita Internet, que tanto facilita o trabalho dos viajantes. Mas há gente que nem assim se orienta. Tanto era o receio de falhar a paragem, que saio antes do tempo… Mas não há problema. Depois de caminhar uns 500 metros, vejo um edifício que me parece familiar. É o prédio onde se situa o hostel. Já tinha estado ali, a avaliá-lo, através do Google StreetView. Mais uma vez, bendita Internet.

2. Helsinki
Alojo-me no CheapSleep Hostel (nada barato, apesar do nome, mas o mais barato de Helsínquia), localizado no típico bairro das casas de madeira de Vallila, junto ao cruzamento da Makelankatu com a Sturenkatu. A indecisão foi muita na hora de reservar, entre este e o Stadion Hostel, situado no interior do Estádio Olímpico (dormir dentro de um estádio é sempre apelativo), mas as reviews online (lá está a Internet outra vez) desempataram. 
Depois de instalado, vejo que ainda há tempo de fazer uma primeira exploração da capital finlandesa. Uma experiência que começa bem, comigo a virar à direita depois de cruzar a porta do hostel, quando o centro da cidade fica para o lado esquerdo. Depois de algumas voltas sem saber bem onde estava, consigo situar-me e rumar ao centro, a tempo de ver o pôr do sol em Eläintarhanlahti. Uma vista apreciável, com as fachadas iluminadas pelo Sol poente, e o lago de permeio. 

Pôr do Sol em Eläintarhanlahti

Passo a ponte de Pitkasilta, também conhecida como Long Bridge, embora seja relativamente curta; uma estrutura onde são ainda visíveis as marcas da guerra civil de 1918, que se seguiu à independência do país. Depois de percorrer a Unionkatu vejo pela primeira vez a sala de visitas de Helsínquia: a Praça do Senado ou, em bom finlandês, Senaatintori, adornada pelo ex-libris da cidade: a Catedral luterana, ou Tuomiokirkko, datada de 1852. 
Fiquei de imediato fascinado por este conjunto arquitectónico assinado por Carl Ludvig Engel, e sobretudo pela imponência da Catedral. A arquitectura neoclássica, de que é bem característica a simplicidade do seu interior, faz deste monumento um edifício de rara beleza. Dá vontade de a fotografar vezes incontáveis, de todos os ângulos, de manhã, em plena tarde, ao pôr do sol ou já de noite, pois é bonita em todas as alturas do dia, e vista seja de onde for, ao perto, do alto da torre do Estadio Olímpico, ou do mar. É a jóia da coroa da princesa do Báltico. Apresenta-se excepcionalmente bonita ao por do Sol, quando os últimos raios do dia banham a ouro o verde das cúpulas e a alvura das colunas, com toda a Senaatintori já mergulhada na sombra.

Tuomiokirkko ao pôr do Sol

Cá fora, sentar na escadaria é um hábito típico de locais e turistas. É um bom local para descansar um pouco em tardes solarengas, e apreciar o movimento da praça, acompanhado pelo canto das gaivotas, que esvoaçam perto das cabeças.
Entretanto nesta primeira visita, caía a noite. Apesar de o relógio da catedral indicar as 23 horas, parecem ser 7 ou 8 da tarde. Por breves instantes isto parece-me estranho, mas logo me lembro que estou a 60º de latitude norte. A noite estival, por estas paragens, é assim. Anoitece tarde, sem que o céu escureça completamente, e amanhece cedíssimo. Alimento a curiosidade de um dia poder experienciar estas noites, a latitudes ainda mais elevadas.


3. Explorando a capital da Finlândia
Apesar de ter comigo folhas impressas com roteiros para explorar Helsinki, depressa me deixo disso. O que me dá gozo é vaguear sem destino, sem itinerários predefinidos, com a liberdade de poder fazer desvios, de passar mais tempo num local sem ter a preocupação de visitar outra coisa qualquer a seguir. Apenas eu e a cidade, e o dia todo só para nós, sem ter o ritmo ditado por uma rota que alguém desenhou. 
Penso nestas coisas enquanto saboreio uma baguete de salmão grelhado, sentado no cais, junto à Market Square (Kauppatori). Uma imensidão de tendas alaranjadas que me faz lembrar um pouco o mercado de La Boquería, em Barcelona, com a diferença de este ser ao ar livre e à beira mar. Aqui vende-se um pouco de tudo, desde flores a produtos hortícolas, passando por souvenirs de toda a espécie, sem esquecer a comida tradicional finlandesa, com destaque para os pratos de peixe fresco. É o local mais cosmopolita de Helsinki, e um ponto de visita incontornável, na companhia do Báltico, dos aromas diversos que se desprendem das tendas, e das gaivotas que ali se concentram.

Kauppatori

Depois de uma refeição junto às águas do Báltico, acompanhada de uma agradável brisa marinha, a Esplanadi é uma boa ideia para a sobremesa. Trata-se de uma grande área verde, ladeada por duas ruas, compreendida entre a praça Ettoraja (o ponto zero geográfico da cidade) e Market Square. Aproveitando as temperaturas amenas que o verão oferece, locais e turistas concentram-se neste local para passear ao longo do parque, ou para fazer um picnic nas áreas relvadas. Para além de cafés e restaurantes, este local tem também uma sala de concertos ao ar livre: o Espan Lava, que costuma receber, durante o verão, cerca de 200 artistas e grupos. Diz-se que, para além de artistas jovens em início de carreira, também ali atuam grupos mais conhecidos. Infelizmente, não tive a sorte de ver por lá Nightwish ou Apocalyptica, nem sequer os Haloo Helsinki! (banda de pop foleiro mas catchy, e que por isso colocou duas ou três músicas na playlist desta viagem). 
Onde a Esplanadi e Kauppatori se encontram, está Havis Amanda. É uma estátua de nu feminino, uma sereia numa fonte, rodeada de peixes e leões marinhos, que ali foi erigida em 1908, e que pretende simbolizar o renascimento de Helsinki, a filha do Báltico. O nickname mais comum desta cidade, para além de Stadi ou Hesi, é mesmo este (Daughter Of The Baltic), embora eu prefira chamá-la de Princesa do Báltico.
Numa colina da península de Katajanokka, poucas centenas de metros a leste, ergue-se outra landmark de Helsinki: a catedral ortodoxa de Uspenski. Completada em 1868, esta catedral de estilo neo-românico, adornada com cúpulas douradas e construída em tijolo vermelho, é um testemunho do impacto da Rússia na história finlandesa.

Catedral ortodoxa de Uspenski

Um pouco mais a sul situa-se o Kaivopuisto, uma das maiores áreas verdes da cidade. Com o mar como vizinho, este parque é um dos mais procurados por finlandeses e turistas para gozar as tardes de verão. Percorro a Ehrenströmintie, passo pelo Kompassitori e sigo pela Merisatamanranta em direção à praia de Eiranranta. Belas avenidas marginais, mar, sol, céu azul, temperaturas amenas, esplanadas cheias, raparigas giras em bikini, o verão no seu esplendor. Por momentos pergunto-me se estou numa cidade escandinava, ou numa qualquer localidade costeira do Mediterrâneo. 
No regresso ao centro, sigo pela Fabianinkatu. É uma das principais ruas da cidade, estende-se por cerca de um quilómetro, e embora não haja por lá nada de especial, é obrigatório para mim destaca-la, apenas e só por causa do nome.

A melhor rua de Helsinki

Para quem gosta de desporto, um local de visita obrigatória é o Estádio Olímpico, que recebeu os Jogos Olímpicos de 1952 (e onde se situa o tal hostel que referi atrás). Destaque para a torre do estádio, com 72 metros de altura, que oferece uma vista abrangente sobre Helsinki, o próprio Estádio Olímpico, e também o vizinho estádio Sonera, casa do HJK.

Estádio Olímpico, com a torre em destaque

Vista a partir da torre do Estádio Olímpico

O espaço verde que envolve o Estádio Olímpico prolonga-se até à zona central de Helsinki, junto ao lago Toolonlahti, formando um dos parques mais bonitos da cidade. Nas suas imediações, encontra-se o Finlandia Hall, um centro de congressos assinado pelo famoso arquitecto finlandês Alvar Aalto. Do outro lado da estrada Mannerheimintie está o Kansallismuseo, o Museu Nacional da Finlândia, que retrata a história do país deste a Idade da Pedra. O edifício data de 1916 e tem como ícones a escultura de um urso que “guarda” a entrada, e uma torre com 58 metros de altura.

Museu Nacional da Finlândia

Uns metros mais para oeste, encontra-se outro must visit da cidade: a Temppeliaukion kirkko, ou Igreja da Rocha, que tem a particularidade de ter sido construída no interior de um rochedo granítico. Pode passar facilmente despercebida, uma vez que a vista exterior se assemelha à entrada de uma caverna, e grande parte do edifício é subterrâneo, mas é de todo imperdível. Paredes de pedra despida, disposição em forma circular, e o tecto formado por uma cúpula de cobre, ligada às paredes por 180 pequenas janelas que permitem a iluminação natural do interior formam a peculiaridade desta obra de arquitectura moderna.

Pespetiva interior da Temppeliaukion kirkko

Para terminar, impõe-se uma passagem pelo Parque Sibelius, onde se encontra um icónico monumento de homenagem ao compositor que dá nome ao espaço. Denominada Passio Musicae, esta escultura de arte abstracta junta 600 tubos de órgão, e que procura captar a essência da música de Jean Sibelius. 

Monumento a Sibelius


4. As ilhas
Falar de Helsinki é também falar de ilhas. São, ao todo, mais de 300 as ilhas que existem ao longo da costa da capital finlandesa. Entre este vasto conjunto, destaca-se Suomenlinna. Trata-se de um pequeno arquipélago à dimensão de uma caminhada, que se pode explorar numa tarde. Quatro ilhotas, ligadas entre si por pontes, e que partilham uma fortaleza militar. Também conhecida como Gibraltar do Norte, esta fortificação construída pelos suecos no século XVIII ajudou no crescimento de Helsinki, mas falhou no propósito de defender a cidade das investidas russas. Hoje em dia, para além de manterem este exemplar único de arquitectura militar, com catacumbas e canhões incluídos, as ilhas servem de casa a cerca de um milhar de pessoas, e são um destino popular nos dias estivais. 


Suomenlinna


Para lá chegar, basta apanhar um ferry que faz exclusivamente o trajeto entre a cidade e a ilha fortaleza, a partir de Kauppatori. A curta viagem de barco dá também a oportunidade de admirar a cidade a partir do mar, com os seus dois ícones, as catedrais luterana e ortodoxa, em plano de destaque.

Helsinki vista do mar

Menos popular mas mais bonita é Seurasaari, uma pequena ilha ligada ao continente por uma pitoresca ponte pedonal em madeira. Equivale isto a dizer que ali não entram automóveis. Para além de florestas, caminhos em terra e pequenas praias de areia grossa, Seurasaari é dominada por um museu ao ar livre, que mostra edifícios típicos finlandeses, trazidos de toda a parte do país. É possível encontrar desde casas de habitação a celeiros e estábulos, passando por moinhos e igrejas. Seurasaari é, em suma, uma ilha de bosques e trilhos, com casas em madeira e esquilos a passarem furtivamente. Visitar esta ilha museu é uma forma de conhecer a Finlândia rural, sem sair de Helsinki.

Seurasaari

5. Um resumo de Helsinki
Após uma semana de estadia, concluo que Helsinki é uma cidade moderna, limpa, organizada, onde tudo parece funcionar em harmonia e perfeição. É também uma cidade muito verde, com parques e jardins ao virar de cada esquina. Além disso, apesar de ser uma capital europeia, com mais de um milhão de habitantes na área metropolitana, mantém uma atmosfera de cidade pequena. Não admira, portanto, que Helsinki figure constantemente nos lugares cimeiros entre as cidades com melhor qualidade de vida. O único senão é mesmo o elevado custo de vida.
É fácil perceber que fiquei apaixonado pela Princesa do Báltico. Espero voltar novamente para a namorar mais um pouco ou, quem sabe, casar-me com ela. Se um dia ganhar o Euromilhões, vou pensar seriamente nisso.

6.Tallinn
Quando planeei a viagem a Helsinki, pensei desde logo em fazer uma “one-day trip” a outra cidade. Ponderei Turku, Tampere e Jyvaskyla, mas havia uma escolha óbvia, a 70 quilómetros de distância, do outro lado do Golfo da Finlândia: Tallinn. Outra cidade e outra capital, de um outro país, que está um pouco off the beathen track enquanto destino turístico.
Opções não faltam para fazer a travessia marítima a partir da capital finlandesa, desde os ferries de maior porte aos catamarans mais rápidos e económicos. Escolho a segunda opção, e em menos de duas horas estou no Porto de Tallinn, a admirar a vista da cidade antiga. 
Não posso deixar de pensar em como esta cidade parece ter sido idealizada para ser visitada por via marítima, uma vez que a entrada do centro histórico fica literalmente do outro lado da rua.
Dirijo-me ao portão Suur Rannavärav, que dá acesso à cidade antiga através da Pikk tänav, junto à curiosa Paks Margareeta, ou torre da gorda Margarida. Este conjunto foi erguido durante o século XVI para defender a cidade, mas também para impressionar quem a visitasse (comigo resultou). Ao trespassar o portão sinto-me a viajar no tempo, e percorro as ruas empedradas até ao coração do centro histórico – a Raekoja Plats. Nesta praça rodeada de cafés e restaurantes destaca-se a Tallinna Raekoda, antiga câmara municipal, datada do século XIV.

Portão Suur Rannavärav

Raekoja Plats

Passo depois pela Catedral Alexander Nevsky (século XIX), que se mantém como um testemunho da herança russa no país, e continuo em direção a Toompea. Foi nesta colina que nasceu Tallinn, com a construção de uma fortificação em 1050, e é aqui que se obtêm os melhores panoramas sobre a cidade. Os miradouros de Kohtuotsa e Patkuli oferecem vistas abrangentes sobre o centro histórico e o seu ícone – a Igreja de Santo Olavo (século XVI) e a sua torre de 124 metros, bem como sobre os modernos edifícios da cidade nova e, em pano de fundo, o Mar Báltico.

Catedral Alexander Nevsky

Vista do miradouro de Kohtuotsa

Vista do miradouro de Patkuli

O miradouro de Patkuli tem ligação ao exterior da cidade muralhada, através de uma escadaria em pedra com 157 degraus, que termina no Toompark. É nesta área verde em torno do lago Snelli que dou por terminado o passeio. 

Vista do castelo de Toompea (século IX) a partir de Toompark

Tallinn é daquelas cidades que se vêem numa tarde, o essencial está visto e a tarde está a acabar. O Sol já começa a baixar no horizonte, e aproxima-se a hora de apanhar o ferry de volta para Helsinki. Enquanto me dirijo ao porto para apanhar o barco, dou uma última olhada à austera arquitectura soviética de Linnahall, a infraestrutura construída para as provas marítimas dos Jogos Olímpicos de Moscovo (1980). A vasta avenida que liga o porto à cidade recebeu-me à chegada, e é a imagem que levo na retina na hora da despedida.

Linnahall

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