quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Tall Ships Races 2011, Pt. 2 - Stavanger

Previously, on The Tall Ships Races: A noite passada em Lisboa à espera do voo, que incluiu uma visita a Alvalade, as viagens de avião e ferry até chegar a Lerwick, e algumas considerações que se reportam ao tempo que passei na capital das ilhas Shetland.

Depois deste início espectacular à lá série televisiva, avancemos para o segundo episódio: corria o dia 25 de Julho quando o Wylde Swan se fez ao mar para cumprir a etapa entre Lerwick e Stavanger, na Noruega. Ficava para trás uma cidade pitoresca e que me deixa as melhores recordações. E ficava para trás também a segurança do porto... Para um marinheiro de água doce como eu, que nunca se tinha aventurado em alto mar, isso significava a aproximação de momentos difíceis. De facto, esta ligação entre as ilhas Shetland e a Noruega encerra aqueles que foram para mim os piores momentos da viagem. Convenhamos que um veleiro não é propriamente o tipo de navio mais estável, e quando esse veleiro está a participar numa corrida... pior ainda. A consequência traduziu-se em enjoos sucessivos que culminavam em chamadas para o Gregório. No total foram 3. É, foi difícil. E com isso tudo veio uma noite mal dormida, tanto por causa da má disposição como devido ao facto de o navio andar quase de lado. Confesso que nestes momentos cheguei a sentir algum arrependimento em ter escrito o artigo e participado no concurso...
Mas os maus momentos acabaram por passar, e cerca de 24h depois da partida de Lerwick o Wylde Swan cruzava a linha de chegada da etapa... em primeiro lugar! A reacção foi quase imediata: colunas no convés, música nas alturas, e o pessoal todo a festejar.
Finda que estava a etapa, o navio dirigiu-se calmamente para um fiorde, onde lançou âncora e passou a noite. No dia seguinte, antes de rumar ao porto de Stavanger, houve ainda tempo para velejar pelo Lysefjorden e admirar as suas belas paisagens, bem como para contemplar, a partir de cá de baixo, o local conhecido como Pulpit Rock, ou Preikestolen, que haveríamos de visitar daí a dias.


Depois sim, rumou-se à capital norueguesa do petróleo e 4ª maior cidade daquele país, com uma população de cerca de 115 mil habitantes (o que equivale mais ou menos a Coimbra ou Braga). À primeira vista, aparenta ser apenas um vilarejo piscatório, e é preciso caminhar um pouco pela cidade para perceber a sua real dimensão. É, apesar de tudo, uma cidade organizada e limpa, onde dá prazer passear, e onde imagino que dê prazer residir (eu pelo menos não me importava de lá morar).
A chegada a terras norueguesas deu-se no dia 27 de Julho, 5 dias depois dos atentados de Oslo, pelo que notava ainda algum ambiente de luto, sendo possível ver velas, flores, bandeiras nacionais e dedicatórias em papel um pouco por toda a cidade, principalmente nas imediações da catedral lá do sítio. Tal não impediu, porém, que a cidade vivesse alegremente os dias em que recebeu as Tall Ships Races, com concertos a toda a hora e uma constante animação na zona do porto, onde havia zonas de "comes e bebes" a fazer lembrar as festas da tuga pátria. Destaco aqui o facto de, nesses concertos que referi, serem constantemente interpretados os maiores sucessos do grande Johnny Cash. Sim senhor, gostei.


Parte integrante do programa no porto era a Crew Parade, um desfile a fazer lembrar as latadas académicas, que contava com a participação de todo o pessoal ligado aos navios das Tall Ships Races. E a fazer lembrar as latadas porquê? Porque era preciso cantar, e berrar, e vestir coisas que quanto mais parvas e originais fossem, melhor. Foi com esse fim que se fez um "trading game" ainda em Lerwick, no qual se começou a negociar com um saquinho de chá e se chegou ao fim com bastante material original para o desfile, desde boxers e chinelos dos Glasgow Rangers até bandeiras piratas, passando por mais, muito mais. Mas havia um aspecto que tornava a Crew Parade bem melhor do que qualquer latada: não havia álcool. E assim sim, com gente sóbria vale a pena participar em desfiles. Mas bom, mesmo bom, foi a Crew Party que se seguiu, onde se jantou... bacalhau. Sim senhor, comi bacalhau na Noruega. E que bom que estava!
Depois sim, houve a party propriamente dita, com música e dança e aí sim já com álcool, mas como eu só lá tinha ido para jantar e já tinha a barriga cheia, bazei e fui até à parte velha da cidade fazer mais um passeio fotográfico.

Foi de resto uma coisa que fiz com alguma regularidade em Stavanger. Sempre que podia, lá andava eu pelas ruas, sozinho como é óbvio, de câmara na mão a fotografar tudo e mais alguma coisa. E era disto que eu gostava, abandonar o barco para andar a passear, e só voltar às horas dar refeições, como se estivéssemos não a falar de um barco, mas de um hotel.
O melhor passeio fotográfico solitário que dei foi porventura um que me levou até aos arredores da cidade, a um sítio chamado Mosvannparken, junto ao lago Mosvatnet. Foi uma caminhada de 7km (4km de ida e volta, mais 3km para dar a volta ao lago), mas que valeu bem a pena dada a beleza do sítio. Concluído o passeio, só desejei ter um parque assim perto de casa.


Mas o passeio dos passeios foi sem dúvida a caminhada até ao já referido Pulpit Rock. 8km sempre a subir, pelo meio da floresta e por caminhos que nem para as cabras servem, enfim, uma prova que não é para meninos. E os russos mostraram como é que se faz, ao fazerem a caminhada usando o uniforme de bordo, no qual se incluíam... sapatos. Gandas malucos! Outra coisa relacionada com os russos que notei nesta viagem... a maior parte das vezes que olhava para um russo, reconhecia o Izmailov. É impressão minha ou a gente de lá tem umas feições muito parecidas entre si?
Bem, de volta à caminhada... Se subir é puxado, descer então ainda é pior. Sei que não me devia queixar, pois pude usar umas Nike confortáveis e calções, coisa que não aconteceu com as personagens que referi ali atrás. De qualquer forma, consegui ir lá acima e voltar inteiro e sem cair uma única vez (ao contrário de alguns heróis que se punham a descer aquilo à Rambo e depois pumba...). O único senão foi que estava um nevoeiro do caraças, e lá do alto não se via nada cá para baixo. Esse facto obriga-me a ir "gamar" algures uma foto em termos, para vos mostrar (e para eu ficar a saber também) como é a vista lá de cima. Cá está ela:


Foi também em Stavanger que houve oportunidade de participar em actividades desportivas. Inscrevi-me no futebol, mas como só havia mais um interessado no desporto rei para além de mim, não deu para fazer equipa... a esmagadora maioria dizia "ah, futebol jogo em casa", e inscrevia-se noutras coisas como surf ou competições de nós (!). Conseguiu-se no entanto reunir uma equipa para o basket, para onde transitaram as duas únicas almas que queriam jogar futebol. E lá fomos, levar malhas das equipas russas, com performances espectaculares da minha parte, sempre com triplos-nulos: 0 pontos, 0 ressaltos e 0 assistências. For the record: chegámos aos quartos-de-final. Para não contar a ninguém: eram 8 equipas.
E pronto, é tudo de Stavanger. Foram 4 dias muito bem passados, numa cidade que adorei e que recomendo para uma visita. A tarde do dia 31 marcou a despedida da cidade, e o início de uma jornada de 4 dias no mar até Halmstad, para mais uma etapa das Tall Ships Races. Mas disso falarei num próximo post. Agora despeço-me com a mítica frase final dos episódios de Dragon Ball (oh, bons tempos de infância): Não percam o próximo episódio, porque nós também não!

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